quarta-feira, 23 de março de 2011

Amor bandido


Em sua carta de despedida, Jeremias dizia que escolhera pular da cabeceira da ponte por dois motivos, primeiro que lá é alto pra caralho, não teria a menor chance de sobreviver, segundo, que fora lá que dera o primeiro e único beijo em Consuelo, a balconista da farmácia, seu único e verdadeiro amor.

Jeremias pulou. Pulou e morreu, conforme havia premeditado.

E conforme haviam escrito em sua carta de despedida, fizera tanta merda em vida que sequer passou pelo burocrático julgamento, foi direto para o quinto dos infernos.

Jeremias não acreditava em Deus, logo, não poderia amá-lo sobre todas as coisas.

Jeremias blasfemava, o nome de Deus era nada para ele.

Jeremias festava de segunda a segunda, para ele, não tinha essa de guardar domingos e feriados.

Jeremias crescera num orfanato, não tinha pai e mãe para honrar, quando referia-se a eles, era sempre para desmerecê-los.

A segunda vez em que Jeremias foi para a cadeia, foi por obediência. Um playboyzinho não pagou o que devia para o dono da boca, Jeremias fez o serviço. Deus não se importa com os senões e poréns, só considera quem aperta o gatilho.

Jeremias se casou muitas vezes, e o casamento seguinte era sempre com aquela com quem tinha traído a anterior.

A primeira vez que Jeremias foi para a cadeia, foi por roubar o som de um carro para comprar maconha. Jeremias adorava fumar maconha.

Na terceira vez que foi para a cadeia, Jeremias não entregou o dono da boca. Mais do que isso, disse que o responsável era um outro, um rival do dono da boca.

Jeremias era pobre, mas bonito. Muito bonito. E sabia que sua marginalidade associada a sua beleza, atraía as mulheres. Não foram poucas as amizades perdidas por Jeremias ter dormido com as esposas daqueles que, então, eram seus confidentes.

E, muitas vezes, Jeremias fazia isso por que cobiçava tudo o quanto não tinha.

Por ser sabedor de que transitava diariamente pelo avesso de cada um dos sagrados mandamentos, Jeremias sabia que o inferno era o lar que lhe caberia como derradeira morada.

Mas no dia em que foi à farmácia comprar alguma coisa pra limpar a ferida da bala que lhe acertara de raspão, numa briga qualquer pelo comando da boca mais lucrativa do morro, Jeremias conheceu Consuelo.

Consuelo não era bonita. Tinha a pele marrom, mas não era bronzeada, era um marrom meio sujo. Consuelo tinha os cabelos lambidos, oleosos e as unhas roídas. Mas Consuelo cuidou de Jeremias. Quando percebeu do que se tratava, puxou-o para os fundos da farmácia e cuidou dele de um jeito que ele não merecia. E não aceitou o muito dinheiro que ele lhe ofereceu pelo silêncio dela. Disse que se quisesse contar a alguém, não o teria levado para os fundos da farmácia.

Jeremias se apaixonou por Consuelo.

Jurou-lhe virar um homem direito, largar a boca, o tráfico, as brigas, a bebida, só não o cigarro. De resto, seria homem sério, homem bom, só não deixaria o cigarro. Poderia diminuir de três para dois maços por dia, mas não largaria, e admitir isso era uma prova da sinceridade dos seus sentimentos. Faria carteira de trabalho, seria servente de pedreiro, auxiliar de almoxarifado, frentista, aprenderia mais combinações de letras do que aquelas que resultavam no seu nome.

Mas Consuelo, mulher direita e evangélica, temente a Deus e seus mandamentos, merecedora do Olimpo mais do que a maioria dos mortais, terminou o curativo e disse para ele deixar aquela sandice de lado, ela se casaria em menos de um mês com o filho do pastor.

Jeremias convenceu Consuelo a encontrá-lo na cabeceira da ponte da cidade, ponte enorme, e a esperou com um buquê de flores do campo, era o que dava o dinheiro que tinha no bolso, as rosas estavam um assalto de caras. Jeremias estava barbeado e vestia camisa de botão, abotoada até em cima. Era sua primeira camisa de botão, e quase se sentia bem com ela. A camisa de botão lhe dava a sensação de ser homem de bem.

Quando Consuelo chegou, olhando para os lados com medo de ser reconhecida por alguém e pensarem mal dela, achando que depois de uma vida tão correta, havia tornado-se adúltera, disse que não poderia aceitar as flores, era mulher direita, e aceitar o presente não seria direito.

Jeremias puxou Consuelo e deu-lhe um beijo que, sem querer, ela correspondeu. Em seguida o empurrou e saiu correndo, chorando, culpando-se, julgando-se a maior das pecadoras já nascidas.

No dia seguinte, Jeremias foi à farmácia pedir desculpas à Consuelo. Ela perguntou se ele já tinha lido “O Pequeno Príncipe”. Envergonhado em admitir que não sabia ler, disse que havia lido vários livros, mas aquele não. Ela disse que a frase mais importante do livro, dizia, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, e completou, tu me cativou.

Jeremias apenas disse que nunca tinha lido o livro, ficou com medo de admitir o seu analfabetismo.

Na tarde daquele dia, quando um viciado o procurou, ele não cobrou pelas pedras requisitadas, pediu apenas que o vagabundo escrevesse para ele uma carta de despedida. O vagabundo aceitou feliz da vida, e disse, Vai se matar, malandro? E tu não tá se matando, safado? Respondeu Jeremias.

Deixou a carta de despedida embaixo da porta da farmácia e se jogou da ponte.

Quando Consuelo chegou à farmácia, feliz por ter terminado o noivado e pronta para dizer a Jeremias que o ajudaria a mudar de vida, que ficaria ao lado dele para fazer dele homem direito, viu a carta endereçada a ela, a abriu, leu-a e entrou em desespero.

Sabia que pelos tantos pecados, somados ao suicídio, só o inferno estaria guardado a Jeremias.

Tomada pela dor do amor perdido, Consuelo entrou gritando no meio do culto, mandando todos às putas que lhes pariu, falando que Deus é o caralho, que todos tinham mais é que se foder. Roubou a cestinha onde os pobres da comunidade depositavam em envelopes o dinheiro que lhes faltaria para por uma comida um pouco mais decente à mesa das suas famílias. Roubou e saiu correndo. Foi à casa dos seus pais e mandou-lhes a merda. A irmã, que jantava na casa dos pais, Consuelo disse que tinha muita inveja da casa própria que ela já tinha. E falou para todos ao redor da mesa que o Deus que eles adoravam era um filho da puta do caralho. Palavras de Consuelo.

Depois saiu correndo rumo ao centro da cidade, chegou à cabeceira da ponte, lembrou do beijo e caiu num pranto avassalador. Em seguida, atirou-se da ponte, tal qual fez Jeremias.

Quando chegou para o seu julgamento, Deus disse-lhe que a perdoaria pelas faltas recém feitas, pois sabia tê-las feito num momento impensado, de desespero, que sempre fora pessoa boa e reta, não seria o deslize final que a condenaria as chamas infindas.

Consuelo ficou possessa, e disse, Vai tomar no olho do teu cu santo do caralho, seu Deus de merda, eu quero ir para a porra do inferno.

Deus ficou puto. Sem dizer nada, com um único gesto fez com que Consuelo descesse direto às profundezas.

Jeremias gemia de dor no mar de lava do Diabo, mas quando viu a porta se abrir e por ela passar Consuelo, que ao avistá-lo abriu um sorriso lindo, que fazia cessar qualquer espécie de dor e sofrimento, Jeremias olhou para ela e disse, O que tu tá fazendo aqui, Consuelo? Você não me esperou lá, vim aqui pra ficar contigo, te amo, porra. Te falei que tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas, vim pra cá para que possas tomar conta daquilo que te tornaste responsável, disse Consuelo. Jeremias sorriu e disse, Não sei o que isso aí quer dizer, mas tô feliz pra caralho de te ver aqui do meu lado, Eu vim só pra ficar do teu lado, Até o inferno é lugar bom, se tu ficar do meu lado, disse Jeremias.

E assim, mesmo sofrendo pra cacete no quinto dos infernos, eles foram felizes para sempre.

4 comentários:

Shuzy disse...

Adorei esse, porra!

=P

Jonatan Strange disse...

pow, falou um bichinha na história... tem que ser politicamente correto nos tempos de homoinclusão

Dei boas gargalhadas

Nayana. disse...

vais publicar um livro só com essa temática, né?

:*

Bruna Rafaella disse...

Lembrei do Jeremias da música da
Legião Urbana - Faroeste Caboclo...

Sensacional, to rindo até agora!