quarta-feira, 2 de março de 2011

Até que a morte os separe


A noite passada foi a mais triste da vida dele.

Apesar das determinações expressas de que não poderia entrar naquele espaço do hospital, o médico que acompanhara ele e sua esposa durante mais da metade da vida de ambos, e que até por isso conhecia de perto a história de amor que haviam construído, deixou de lado as tais ordens e permitiu que ele entrasse na sala fria da UTI, onde oito pessoas nuas e semi-mortas faziam-se companhia inconscientemente, para que na sétima cama pudesse passar mais uma vez suas mãos antigas sobre os cabelos brancos da esposa, e beijar-lhe a testa uma vez mais.

Apesar de já caminhar pela segunda metade dos oitenta anos, ainda eram muito firmes os seus passos. Mas ao ver sua companheira de tantas estações ali naquela sala que nada tinha da alegria que ela sempre exalou, precisou apoiar-se no braço do médico amigo para que a fraqueza intuitiva de suas pernas não o derrubasse no chão.

Eu que deveria estar alimentando ela, não estas sondas, disse para o médico enquanto desviava sua mão antiga dos vários tubos que trabalhavam dedicadamente noite e dia para mantê-la viva, não cozinho muito bem, mas ela adora a sopinha que eu faço. Talvez não goste, eu sei que não é lá grande coisa, mas ela sempre disse que adora a minha sopinha. Sopinha é bom para doente, não é doutor? Eu faria para ela a melhor sopinha que ela já tomou na vida. Por que a vida passa tão rápido, doutor?

Emocionado, o médico buscou uma cadeira para que ele pudesse se sentar ao lado dela por alguns minutos. Pela experiência que o exercício da medicina lhe dera, sabia que eram ínfimas as chances do trabalho dos dedicados tubos surtir efeito por mais uma noite além daquela.

Sentou-se ao lado da esposa e com muito cuidado, passou delicadamente o dedo sobre a mão que parecia indiferente ao carinho.

Lembrou do dia de muitas décadas atrás, quando encheu-se de coragem para ir até a casa dos pais dela e, muito sem jeito, disse para o pai da namorada, Deixa eu casar com a sua filha? Prometo fazê-la feliz pra diabo. O sogro, que na época já gostava dele, riu da maneira desajeitada que ele tentava encontrar para deixar claro o amor que sentia pela sua filha, abraçou-o e disse, Bem-vindo à família.

Nem mesmo as eventuais ausências do ansiado dinheiro foi capaz de fraquejar aquele amor tão grande, como costuma acontecer aos casais comuns. Aquele nunca fora um amor comum. Foram de uma cumplicidade e companheirismo raros, se é que em algum momento tenha havido outro parecido.

Cumpriram a risca cada frase do juramento feito diante do padre, e agora a morte se aproximava deles para separá-los e exigir o cumprimento da promessa feita, como se fosse uma praga rogada pelo sacristão.

Precisamos sair daqui, disse o médico, logo chega o outro plantonista e eu posso me complicar se ele souber que permiti a sua entrada.

Ele aproximou-se do ouvido da esposa inconsciente, e disse com a voz trêmula, Na estante da nossa casa tem sete porta-retratos, cada um deles com uma foto nossa, abraçados, segurando cada um dos nossos netos nos dias em que nasceram. Daqui a menos de um mês, deve nascer a nossa oitava netinha. Ela vai receber o seu nome... Respirou fundo para não desabar em prantos, ergueu os óculos, passou a mão sobre os olhos cansados, represas ineficientes à força das lágrimas, e continuou com a voz ainda mais embargada, mas num volume que só ela poderia ouvir, Eu não quero segurar nossa netinha sozinho, fica mais um pouco comigo, por favor... Para os meninos eu sempre fiz brinquedinhos de madeira, mas é você quem faz as bonecas de pano para nossas netinhas. Fica mais um pouco comigo, por favor... Só mais essa foto comigo, por favor...

Vocês tiveram uma vida linda, arranje a força que agora lhe falta nas lembranças boas que vocês construíram, e eu sei que lembranças boas são o que vocês mais proporcionaram um ao outro, disse em tom de consolo o médico amigo, enquanto acompanhava-o até a saída do hospital.

Caminhando com passos demorados para chegar à casa que parecia enorme desde que ela mudara-se contra a vontade para o leito do hospital, viu na praça do bairro um casal jovem se beijando num dos bancos. Sentou em outro, e permitiu que seus olhos cansados trouxessem à face o choro que continha a semanas. Ele tremia de tanto chorar. O casal se aproximou preocupado para saber se ele passava bem, se queria que chamassem alguém. Ele sorriu com o queixo tremendo pelo pranto incontrolável, e disse, Estou bem, obrigado.
Só dormiu muitas horas depois, com os olhos ardendo de tanto chorar.

Na manhã seguinte, um pouco antes da hora do almoço o telefone de casa chamou. Ele teve medo de atender, antecipando o assunto indesejado que a ligação trataria. Do outro lado da linha o médico amigo pediu com a voz embargada para que ele fosse até o hospital, seus filhos já estavam todos lá.

O taxista ajudou-o a caminhar pelos corredores verdes, já que não teria forças para percorrer o trajeto sozinho. No quadrado de vidro da porta da UTI, viu a cena que mais temera durante as últimas semanas, o leito em que ela estivera encontrava-se vazio, o lençol esticado, uma organização irritante do espaço que antes estava amarrotado por ela. O taxista não teve forças para segurá-lo, tão imediato foi o desmaio.

Quando acordou e percebeu-se sentado numa poltrona com os quatro filhos ao seu redor, mais uma vez tremeu de tanto chorar.O filho mais velho beijou a mão do pai, acariciou sua cabeça calva e pediu que os irmãos saíssem da frente dele.

Na cama em frente à poltrona, a esposa ainda muito fraca e alimentada por sondas, sorriu com a pouca força que passava a recuperar, e com os olhos marejados esticou a mão na direção do marido.

Não quis dizer para o senhor pelo telefone, para não lhe privar da alegria de ver com os seus próprios olhos a recuperação que eu não entendo como aconteceu.

Os tubos dedicados agora podiam descansar, pois, se ainda não tinha condições de se alimentar, pelo menos de respirar já dava conta sozinha.

Recebeu dele o abraço mais amoroso que se pode receber, e mesmo sem força para retribuí-lo a altura, disse baixinho para que só ele ouvisse, Prometo que vou te fazer feliz pra diabo.

Ela permaneceu ainda mais três semanas se recuperando no hospital até poder voltar para casa e tomar a sopinha que ele prometera e que, de fato, para ela fora a mais deliciosa que tomara em sua longa vida. Em função disto, no oitavo porta retrato na estante da sala, ela estava sentada na poltrona do hospital que ele havia sido acomodado quando desmaiou, enquanto segurava a netinha recém nascida ao lado dele. E ainda vieram outros porta retratos juntar-se àqueles cada vez que uma nova pessoinha vinha fazer parte da família, todos com fotos iguais as anteriores.

E as muitas noites seguintes a daquele dia em que estivera sentado ao lado dela na UTI, foram as mais felizes da vida dele.

7 comentários:

Bruna Rafaella disse...

Que lindo!!!
imaginei a cena...
fiquei me segurando para não ler o final, eu pensei que você ia matar a velhinha depois do último retrato, é porque me acustumei com o seu jeito de me surpreender no final dos textos!

adoroooo!!!



Beijo.

Nayana. disse...

Chorei litros.

Anônimo disse...

Muito lindo.
Parabéns.

Anônimo disse...

O verdadeiro amor existe, e ele é assim simples e tranquilo. nada q nos deixe ancioso, se for assim NÃO é amor. lindo texto!

Shuzy disse...

Vim colocar em dia a leitura do teu blog e... Meeh
Nunca pensei que fosse chorar por aqui.

Vc surpreendeu de um jeito lindo.

Michele Souza disse...

Parabéns pelo belíssimo texto David.

paullyany... disse...

muito linda a história ....chorei compusivamente...espero que ao envelhecer meu esposo tenha a mesma dedicação comigo !!!
adorei.......