quinta-feira, 29 de abril de 2010

Num mundo repleto de protagonistas, eu admito, nasci para figurante.


No post anterior, citei a festa de aniversário do primeiro ano de vida do Benjamin, o bebê Superpose. Benjamim é filho de Isaac Varzim(DJ talentosíssimo, conhece e entende de música como poucos, além de estar sempre atualizado com as mais variadas novidades que a internet nos proporciona. Vai conhecer vídeos bizarros assim lá longe!) e Paula Felitto (a mãe mais querida e divertida que já conheci, além de uma artista na essência, ela não se faz de artista, ela é!).

Isaac e Paula trabalham com música predominantemente eletrônica, e o fazem com tanta qualidade que até alguém como eu, que tem seus alicerces musicais no rock 70tista, e na música brasileira da mesma década, gosta.

Por trabalharem com tal vertente, o visual de ambos reflete o ofício. São modernosos, estilosos, criativos nas roupas, cabelos, sapatos e acessórios. Na supracitada festa, além de um punhado de celebridades locais (ou pessoas que acreditam-se como tal), havia também um punhado de pessoas fashions e antenadíssimas na próxima tendência (sim, a próxima, pois a última para eles, é pouco!).

Para mim, que não sou do meio, é cômico observar aquela fauna. Pessoas tão preocupadas com o seu penteado ultra-lambido, ou ultra alvoroçado, que não conseguem ficar mais do que cinco segundos sem passar as mãos em suas madeixas para verificar se tudo está em ordem. Ou desordem, dependendo do penteado.

Há que se admitir, são pessoas, acima de tudo, corajosas. Ou caras-de-pau, não sei. Mas o fato é que jamais teria coragem de sair na rua com roupas similares as que a maioria trajava. Deve dar muito trabalho, exigir muito tempo, esforço e dedicação, para conseguir descombinar as peças que vestem, com tanto talento. E a coisa vai evoluindo meio que em efeito cascata, começa pelos cabelos cuidadosamente bizarreados, óculos quadrados com grossa armação preta de acetato, passando pela camiseta com alguma estampa divertida, um casaco xadrez, que poderia ter sido pego emprestado do avô, calças em cores berrantes e tênis branco com cadarço colorido, algo meio segunda-série do primário, isso para não citar as nauesabundas cores de esmaltes que agridem as pobres unhas indefesas.

Nas minhas várias leituras diárias, blogues que acompanho, está um chamado Donde Estás Corazon, que dentre outros assuntos, predomina fotos de baladas com legendas divertidas aprovando ou não o figurino dos fotografados.

Me divirto bastante com o blogue, suas fotos e legendas, mas não adianta minhas queridas blogueiras, todos, TODOS os figurinos fotografados estão veementemente reprovados! Dia desses chegaram até a aprovar calça legging de oncinha. Não, não, não, minhas caras, mil vezes não! Legging de bichinho é crime hediondo! Sabe quando a mulher mata o marido e usa a TPM como atenuante da pena? Então, uma legging de bichinho pode ser utilizada como atenuante para a pena do marido assassino.

Tudo bem, sou chato, recalcado, rabujento e retrógrado. Mas até aí, nenhuma novidade. Sou tão démodé que chego ao cúmulo de ser heterossexual, veja só que absurdo!!! Em pleno século vinte e um, alguém gostar apenas do sexo oposto é no mínimo uma afronta às boas maneiras modernas. O mínimo que se espera de uma pessoa civilizada é que ela seja, ao menos, bissexual. Mas admito que neste ponto sou praticamente um neardenthal. Neste e em todos os outros também.

Não, eu não entendo nada de moda. Aliás, como já disse em um outro post, no qual eu dava dicas de moda, quer saber o que não usar? Veja o que está na moda! Sou básico ao extremo, se deixar uso camiseta lisa, sem estampa (preferencialmente branca ou preta), com calça jeans pelo resto da vida. E para absoluto desespero de quem tem o mínimo de interesse em assuntos relacionados à moda, quando vario meu figurino é para tirar a camiseta lisa, sem estampas, e colocar uma com listras verticais preta e branca, com o símbolo do Figueirense no lado esquerdo do peito. Sim, sim, sim, eu cometo o acinte de ir ao shopping com camisa de time de futebol, veja você que absurdo! Mais do que isso, para que o brega não deixe de cumprir sua missão na terra, tenho até uma personalizada da seleção brasileira, escrito nas costas: “Don Mattos”.

As pessoas mais interessantes que eu conheço, são (em tudo), as mais simples. Não precisam se impor esteticamente, conflitar com aquilo que supostamente seria uma ditadura dos padrões pré-estabelecidos, para se fazerem notar. Elas são interessantes por serem, e não por tentarem parecer ser. Também não quero com este parágrafo, afirmar que pessoas que gostam destas inovações estéticas sejam necessariamente superficiais, tanto não afirmo isso que iniciei o texto reverenciando o casal Superpose, por quem tenho o mais profundo carinho e admiração, e que são modernosos até a medula. Entendo que muitas vezes o vestuário é parte de uma cultura que se representa, parte necessária de toda uma comunicação pretendida. Entendo e respeito, mas não adianta, não visto.

Mas convenhamos, tem gente forçando bem a barra. É tanta gente com vocação para protagonista, que o mundo tem sentido falta de coadjuvantes. E talvez por isso ultimamente tenha me sentido tão deslocado, sou um dos últimos figurantes num mundo repleto de personagens principais. Não quero nem ver a entrega do Oscar, vai ser um empate técnico com um milhão de pessoas, e o vencedor será decidido no detalhe. Talvez no tamanho do alargador da orelha esquerda, talvez na altura do topete (se bem que a Amy já não está com essa bola toda), ou quem sabe no par de botas sete léguas mais criativo que alguém estiver usando. Por via de regra, vou continuar lá no meu canto, quietinho, camisa do Figueira no peito, tomando minha cervejinha enquanto os tantos protagonistas brilham. Afinal de contas, é isso que fazem os figurantes.

14 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

larga de ser besta, guri, tu és protagonista, ô!!!

Ronnie disse...

Tadinho II... mas to contigo na cervejinha...

dondeestascorazon disse...

Que post ÓTIMO, Don! Twittei ocê :)

Bia
.

Don Mattos disse...

Claro que estás, Ronnie, tu também és um figurante-nato!

Anônimo disse...

Assino em baixo, nossa, super assino sem tirar nenhuma vírgula! Muito bom!!!

Anônimo disse...

Primeira vez que entro aqui, e adorei!
Tudo escrito de uma maneira muito simples e gostosa de ler.. Me identifiquei muito!
Tirando a parte do Figueirense é claro! hehe :D

Daca disse...

Tu é o eterno Robin (se bem, que tu disputa com o Jean Mafra esse posto)...

Don Mattos disse...

Santa constatação brilhante, homem morcego!

Se bem que acho que estou mais para Burro do Shrek!

Clarice disse...

É melhor ser o Burro do Shrek mesmo. A fama do Robin não é muito bem quista por alguns.

Daca disse...

Por alguns todos, Clarice... heuheue

Lamaringoni disse...

Atóron ser figurante. Tu não?

Excelente texto, moquirido!

Clarice disse...

Ih, mas hoje tem gosto pra tudo meu caro Daca. Não sejamos simplistas com as preferências alheias.

Eu mesma, morro e não vejo tudo.

Sandro Brincher disse...

Cara, a Tati Quebra-Barraco [antes de se filiar ao PTC] resumiu esse sentimento [ou conjuntura] da forma mais perfeita possível: "sô feia, mas tô na moda; eu quero é novidade, valeu?".
É isso.
Abraço.

Manuela Penzlien Medeiros disse...

tbm sou figurante. bem melhor hehehe