quinta-feira, 22 de abril de 2010

A maior sessão de descarrego do mundo: DIA D!


Dias atrás recebi um panfleto divulgando o “Dia D”, evento evangélico que seria (e foi) realizado no Largo da Alfândega, centro de Florianópolis.

O panfleto era realmente tentador, e quase saí de casa para presenciar as atrações, entre elas:

· Mais de 1000 homens de branco em jejum!
· Depoimento de uma mulher curada do câncer!
· Depoimento de uma mulher curada da AIDS!
· A maior sessão de descarrego do Brasil!

E sem contar que teria ainda a grande oportunidade de sair de lá com uma cura, pois seriam oferecidas: 30.000 curas na hora!!! (O panfleto não trazia informações sobre curas à prazo)

Mas um trabalho da faculdade acabou me segurando em casa, naquela gostosa tarde de feriado. Além do mais, que eu saiba não tenho nenhuma doença que esteja necessitando de uma intervenção divina. No máximo uma dorzinha no ouvido, mas nada grave, me viro bem com ela sem a necessidade de apoquentar deus e seus jejuadores de branco. Mas também não fiz um exame prévio mais detalhado, de repente com uma investigação médica mais criteriosa, poderia descobrir que tenho câncer ou AIDS, e já me safaria desta sem a necessidade de quimioterapia ou AZT. Levando-se em conta que os nossos governantes não são muito chegados em gastar dinheiro com uma coisinha besta como a saúde, bem que poderiam contratar esses jejuadores de branco, imagine o tanto que se economizaria!

Na minha ingênua descrença no transcendental, e particular aversão ao cristianismo, achei que no máximo 100, 200 pessoas desesperadas enfrentariam aquela gostosa tarde chuvosa à espera de um milagre. Contudo, entretanto, porém e todavia, eis que para minha estupefata surpresa, mais de 60.000 pessoas acotovelaram-se em frente ao palco sagrado itinerante a espera de uma intervenção divina nas suas vidas consideradas por elas muito pequena, mediante a grandeza do seu deus milagreiro, especializado em descarrego com ênfase na cura do câncer e da AIDS.

Fico em dúvida se o sucesso do evento está na excelente oratória e poder de convencimento destes artistas do descarrego, ou se a multidão é resultado do desespero coletivo, a tal ponto de achar que só uma ocasião como aquela seria capaz de reorganizar a baderna psicológica que tomou conta das suas pobres vidas.

Há ainda uma outra possibilidade, esta muito mais preocupante, talvez as estatísticas da secretaria da saúde estejam totalmente defasadas, e hoje Florianópolis conta com 60.000 portadores do vírus da AIDS. Considerando-se que temos aproximadamente 400.000 habitantes no nosso pedacinho de terra perdido no mar, 15% da nossa população possui AIDS, o que é muito preocupante, pois com um índice deste é muitíssimo provável que você já tenha dividido seus lençóis com uma dessas pessoas, se não diretamente, é quase certo que por tabela você já dividiu seus fluídos com algum dos 60.000 crentes do Dia D.

Mas podemos negociar com um desses prepostos de deus. Se o vírus transmite-se pelo contato sexual, basta requerer junto à graça divina que a cura também o seja, deste modo bastaria você ir lá no seu caderninho e sair comendo todo mundo novamente. Se deus é justo, nada mais justo do que essa cura compartilhada, vamos exigir o nosso direito de amar ao próximo (novamente).

Contudo, deus pode alegar em sua defesa que havia uma cota de 30.000 curas para o evento, e considerando-se que 60.000 estiveram presentes, ainda temos circulando pelas ruas de Desterro 30.000 pessoas infectadas. Por mais cruel que seja, só nos resta torcer para que os 30.000 curados tenham sido os com AIDS, os outros terão que voltar ao Cepon.

Para finalizar, uma constatação bastante pertinente. Diferente da afirmação feita por Jhon Lennon em 1966, os Beatles já não são mais populares do que Cristo, afinal de contas Sir. Paul levou apenas 50.000 pessoas no último show realizado em Los Angeles, no mês passado. Mas claro, o apelo eclesiástico foi concorrência desleal, praticamente um dumping. Para assistir Paul o ingresso mais barato custava 180 dólares, já para os milagreiros jejuadores de branco, a entrada era franca.

Não há dúvidas, o papa já não é tão pop, mas deus ainda está com bastante moral!

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