terça-feira, 5 de outubro de 2010

Abolicionista


Sei lá, não gosto de pretos.

Deixa de ser escrota, menina.

Ui, seu grosso.

Grosso é como você imagina o pau dos negões, quando não tem ninguém por perto e você se diverte com seu chuveirinho no banho.

Ei, pode ir parando por aí, não lhe dei essa liberdade para falar comigo desse jeito.

E eu não lhe dei a liberdade para manifestares seus ideais escravistas perto de mim.

Não disse que sou escravista, só que não gosto de pretos. É um direito meu, oras. Algumas mulheres não gostam de baixinhos, outras odeiam os barrigudos, outras passam longe dos carecas. Eu não gosto de homem preto, só isso. É pecado ser sincera?

Isso não me parece sinceridade, me lembra mais hipocrisia mesmo.

Hipocrisia é se fingir de íntegro ao ponto de não ter qualquer tipo de preconceito. Todo mundo tem o seu, normalmente mais de um. Eu admito, isso não é hipocrisia. Não finjo ser ou gostar de algo que não sou.

Preta, no caso.

Isso, não sou preta, e daí? É crime ter nascido branca, ter descendência européia?

Escute aqui, minha neguinha.

Escute aqui você, primeiro eu não sou “neguinha”, e segundo, muito menos sou sua.

Mas você é brasileira, seus antepassados eram europeus, não você. Você é brasileira e todo brasileiro é meio preto também.

Olha bem para minha cara, olha bem para minha pele. Tem alguma coisa de preto, escuro, mulato em mim?

Sua pele não diz o que é seu sangue. Por mais que isso macule seus falsos parâmetros de beleza alva, se não você, em algum momento alguém da sua família já comeu ou deu para alguém de pele negra.

Talvez na sua família, não na minha.

Você não está na Noruega, não existem brancos no Brasil. Os que são meio brancos ficam torrando nas praias para deixar suas peles escuras. Mas nem eles são tão brancos assim.

Não gosto tanto assim de praia.

Mentira.

Verdade, acho meio vulgar essa exposição toda. As mulheres quase nuas se exibindo para homens tão semi-nus quanto.

Outra mentira. Mentira de mulher que não tem bunda, que não tem peito. Seu sonho era ter uma bela bunda, uma bunda de mulata, uma bunda de passista, só para poder enfiar o seu rabo num biquíni minúsculo e ficar sob o sol, deitada de costas numa canga, esperando que o sol desenhe um pouco abaixo da sua cintura um “v” branquinho, aquelas marquinhas que estampam as Playboys e Sexys que a cada mês trazem os pôsteres que cobrirão as paredes das borracharias, e que serão o sonho de consumo do seu futuro marido. Toda mulher sonha em se ver de espartilho, de calcinha fio dental, de meias 7/8. Mas coxa e bunda não é uma graça que Deus concede a todas. E ele se esqueceu de você, fazer o quê? Mas que você queria uma bela bunda para exibir na praia, tenho certeza que queria.

Você acha que entende muito de mulheres, da vida, né?

Não, de jeito nenhum. Mas entendo do óbvio. E, sem querer lhe ofender, mas você é bastante óbvia. Não gosta de preto, mas escuta Lenny Kravitz no som do seu carro. Não gosta de preto, mas diz que acha Cartola gênio, quando quer se fazer de culta entre os seus amigos. Não gosta de preto, mas discursa contra o preconceito norte-americano. Ou estado-unidense, sei lá, vá que você queira também se fazer de latino-americana contra a empreitada imperialista. Não gosta de preto, mas nos anos noventa ralava na boquinha da garrafa, depois desceu até o chão no baile funk, tudo música de preto. Preto como eu, como você.

Talvez isso deixe você frustrado, mas eu gosto de ser branca.

Gosta, mas quando você vai à festas fica horas no salão fazendo cachos, disfarçando a lisura dos seus cabelos, tentando imitar os cachos das pretas. Gosta de ser branca, mas usa aquele batom que a propaganda diz que deixa os lábios inchados, mais grossos. Você queria ter lábios carnudos, como os lábios das pretas. E se você não fosse uma fodida, faria uma plástica, injetaria silicone ou algo parecido nos lábios, só para deixá-los carnudos. Como os de uma bela preta.

Olha, você até que é bonitinho, quando me ofereceu uma cerveja, até pensei que poderia rolar alguma coisa, mas em menos de cinco minutos de conversa você só fez me criticar. Me criticando por eu ser sincera, falar a verdade, falar o que eu penso. Com licença, já perdi tempo demais com você.

Eu que o diga.

Tchau.

Quer que eu chame um táxi?

Não, obrigada. Sou fodida, mas tenho carro. Vou pra minha casa ouvindo Lenny Kravitz no som do meu carro.


Horas mais tarde, já em casa, depois de um longo e demorado banho, onde o registro da potente ducha quase não foi apoio suficiente para os ímpetos sexuais do seu chuveirinho, ela sentiu fome.

Pensou em descer e comer um cachorro quente.

Não queria sair de casa.

Pensou em pedir uma pizza.

Lembranças do chuveirinho, o tesão ainda não acabara.

Uma portuguesa, talvez.

Vestia apenas um hobby, nada por baixo. Cruzou as pernas, e aquele roçar da pele de uma coxa na outra, a fez fechar brevemente os olhos.

Não, portuguesa não. Calabresa, talvez.

Lentamente, deixou que uma coxa escorregasse sobre a outra, indo até o joelho e voltando.

Onde está a lista telefônica?

Levantou e foi procurá-la, com passos curtos, as pernas muito juntas. Parou um pouco e comprimiu-as, uma contra a outra. Aquela contração, ah, aquela contração...

Não encontrou a lista, mas o jornal de domingo estava na mesinha de centro. Abriu, foi aos classificados.

O dedo indicador da mão direita passeava entre os anúncios, atrás de algum que matasse a sua fome.

A mão esquerda, insolente que só ela, entrou no hobby, tocando-lhe muito de leve um dos seios, acariciando com muita delicadeza o mamilo eriçado, querendo que aqueles dedos fossem lábios, fossem língua.

Alô?

Sim?

Quem fala?

Quer falar com quem?

É sobre um anúncio no jornal.

Pois não?

Marçal?

Um metro e noventa, ombros largos, porte atlético, oitenta e sete quilos, vinte e um centímetros.

Mulato?

Negro.

Anote o meu endereço, por favor.

Um comentário:

G. Magalhães disse...

Adorei, aliás, adoro parceiros negros, e branco, e pardos e tudo...kkkkkk.
Meu esposo e negro...sem comentários...kkkkk
Beijos.
G.