quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Só mais cinco minutinhos


Morri na noite passada.

Talvez você até já esteja sabendo, por via das dúvidas, fica aqui o comunicado oficial.

Há sete meses, o médico havia dito que não passaria de quatro. Vivi mais três, só por desaforo. E o mais legal de tudo, não foi o pulmão que me matou, haha, o médico se deu mal!

Foi naquele dia que deixei você, que eu soube que estava doente. Não disse nada, pois estávamos desgastados demais, isso pareceria mais uma tentativa de fazer dar certo algo que já se arrastava há muito tempo. Se não deu certo quando estava bem, não seria estando doente que saberia fazer as coisas funcionarem. Não queria fazer você sofrer uma vez mais, me vendo definhar. Mas enfim, morri e cá estou eu, acredite se quiser, no céu.

Você estava certa, como sempre, e eu errado, como sempre. Deus existe.

Fiquei puto quando descobri. Você sabe, tenho muita dificuldade em admitir que estou errado. Mas ele existe, e é gente boa, até. É meio inseguro com a aparência, andava pensando em tirar a barba, deixar só o bigode. Disse a Ele pra não fazer isso, vai ficar com cara de vascaíno, se deixar só o bigode, falei pra Ele. Foi aí que Ele desistiu da ideia. Ele não curte muito o Vasco, diz que copiou o uniforme do seu time.

Deus torce para a Ponte Preta, e é por isso que, mesmo com mais de cem anos, ela nunca ganhou nada. Disse que se a Ponte ganhar algum título, vão sair falando que Ele fez mutreta, que só ganhou por que é o time que Ele torce e tal.

Deus é um cara honesto, mas é muito ruim na canastra. Se pudesse jogar a dinheiro, já teria ganhado uma boa grana nas costas Dele. Mas aceitou uma apostinha, se eu ganhasse numa melhor de três, teria o direito de falar contigo mais uma vez. Falou até que eu poderia escolher a maneira, através de carta psicografada, algum médium incorporado, mas escolhi esta por que, você sabe, sempre adorei te ver dormindo. Assim, além de falar com você mais uma vez, ainda posso te ver dormindo mais uma vez.

Não entendi direito por que fui recebido no céu, depois de tanta maledicência. Ele disse que achava minha rabugice divertida, não me condenaria só pelo meu mau humor. Disse também que fui uma boa pessoa, apesar de tudo. Isso me conforta um pouco, vindo Dele.

Você também tinha me dito isso, apesar de tudo.

Deus gosta muito de você, e me garantiu que você terá uma vida muito boa. Vai ter um pouco mais de sofrimento agora, mas depois as coisas se acalmarão, a poeira vai baixar, a dor vai virar uma saudade boa. Li numa reportagem, uns meses atrás, que o amor serve como analgésico. Coisa química, mesmo. Quem ama, sente menos dor. Claro que com a perda do amor, sofre-se um bocado, como se o amor fosse um veneno queimando tudo por dentro. Mas o antídoto é sempre feito a partir do veneno, a velha fórmula do soro antiofídico. Esse mesmo amor que agora vai doer, talvez até mais do que já doeu há tempos atrás, vai ser a cura da dor. Vai transformá-la numa saudade boa, numa fotografia bonita de uma época gostosa, e depois disso, você vai ser feliz. Ele me deu a Sua palavra, você ainda vai ser muito feliz.

Eu tinha planos de te encontrar uma vez mais, esclarecer várias coisas sobre a nossa história, te dar algumas dicas sobre uma grana que deixei no banco, em seu nome, te pedir um favor lá na empresa, tem um pepino que não resolvi, mas é coisa simples, só precisa levar um envelope para uma pessoa que você, se puder e quiser, poderá fazer para mim. E, melhor de tudo, vou te dizer os números da mega-sena! Tua nova vida vai começar com muita grana no bolso! O que eu deixei no banco vai ser dinheiro de pinga, perto da bolada que você vai ganhar! Se tivesse morrido da doença, teria tido tempo de te encontrar e falar o que eu tenho pra te dizer pessoalmente, exceto os números da mega, claro. Mas você sabe que eu sempre fui de adiar tudo, sempre acreditei que teria uma próxima oportunidade.

Só não contava com um caminhão na contramão...

Enfim, deixe-me ver por onde começo. Imaginei começar pelos números da mega, mas talvez você os esqueça depois do resto que vou contar. Então, deixemos os números para o final. Primeiro o favorzinho, lá na empresa, em cima da minha mesa eu deixei um envelope, dentro dele tem um relatório que... Não... Cacete, isso é hora para o telefone tocar? Não acorda, por favor, vou ser breve, você só precisa dormir mais um pouco, eu não vou ter outra chance. Vamos pular essa parte, só memorize os números, por favor, não vá esquecer, então, o primeiro é... Não! Não acorde, por favor! Só mais cinco minutinhos, trinta segundos serve, por favor... Não...

Alô?

Oi, te acordei?

Não, quer dizer, sim, mas tudo bem. Estava tendo um sonho muito estranho, foi bom você ter ligado. Mas por que você tá ligando a essa hora?

Você ainda não soube?

Soube o quê?

Olha, não queria ser eu a te dar essa notícia, mas você precisa saber.

O quê? Fala logo, você tá me deixando apavorada!

...

Anda, fala!

Um caminhão na contramão, um acidente horrível.

8 comentários:

Bruna Rafaella disse...

Hilário...

Seus posts são surpreendentes!!
ah acho que te vi na praça da sé
ontem, o mendigo me lembrava você!!
hahahaha....
brincadeira!

Bjo

ah se quiser me seguir eu ficaria feliz né, porquê não?

até +

jean mafra em minúsculas disse...

ahahahhahah

adorei o conto. e o comentário da bruna rafaela. aliás, quem é bruna rafaela? que nome forte, hein? parece até personagem de david mattos...

Shuzy disse...

Senti uma pontada de frustração!

MRC disse...

Quando passo por aqui, sorrisos me escapam dos labios e ganho meu dia!
Simplesmente adoro o jeito e o que voce escreve.

Saudaçoes,
M

G. Magalhães disse...

Maravilhoso post Don!!!
Você é o máximo!!!
Adoro perder meu tempo aqui.
Beijos.
G.

so sad disse...

hummmm, supreendente.
beijo!

julie disse...

tá. não li o texto e nem vou ler.
preguiça e ressaca.

mas ó.. obrigada pela ilustre presença. é sempre bom ter alguém para xingar muito!

besos.

Daca disse...

mendigo da sé.. amém iabadabadu