terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Caboclo da pica bem feita, a Cigana e a Menina arrependida


Nada no mundo é melhor do que ter esse homem, ela pensava cada vez que terminava a noite exausta de tanto gozar.

Quando ela disse, Você vai arder no fogo do inferno, filho duma puta, ele pensou, Que deus te ouça e o diabo diga amém, mas não chegou a dizer.

Tudo porque quando a viu chorando pelo amor que ele não lhe retribuía, deu uma risada e mandou chorar por alguma causa que valesse a pena, não por ele.

Ela já devia ter desconfiado do caráter dele quando numa noite de sexo muito intenso, ele parou instantes antes do orgasmo dela em meio a um acesso de riso, e depois de recuperar o ar, lhe disse, Se quando trepava a Janis Joplin tinha orgasmos, ela devia gemer igual a você, precisa gritar tanto? Ela ficara chateada, mas preferiu ir para o chuveiro sem dizer nada. Quando voltou para o quarto com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar, ele acendia um cigarro – contrariando o pedido dela de não fumar na cama – e fazendo pouco caso do choro dela, disse, Pô, foi pro banheiro fechar unzinho e nem me ofereceu um tapinha, mão de cola. Ela se abraçou ao travesseiro, virou para a parede e não lhe dirigiu mais a palavra naquela noite. Com a cabeça apoiada nas mãos entrelaçadas e cigarro entre os lábios, ele cantarolou com deboche, Cry baby, cry baby.

Vai dizer que você não sente nada por mim? Perguntou antes de praguejá-lo com as chamas do inferno, como se as palavras fossem a bóia que se joga ao náufrago numa última tentativa de salvação, mas ele respondeu, Tesão serve? Como se náufrago, fizesse questão de se afogar.

Eu não sei por que ainda sofro por você, Eu também não, com tanto homem legal no mundo, tanto cara decente, você foi inventar de sofrer justo por mim, que desde o início deixei bem claro que não presto e não mudaria nem por você nem por mulher nenhuma do mundo? Eu sei, eu sempre soube que você não presta, mas precisava me trair com todas as minhas amigas? Precisar não precisava, mas elas estavam tão carentes, tadinhas, Nossa, como você é bondoso, Tá vendo, no fundo eu sou uma boa pessoa, Como é que ainda não lhe indicaram para o Nobel da paz? Sabe que eu estava pensando exatamente nisso esses dias, faço tanta caridade para tantas mulheres carentes, que meu esforço deveria ser homenageado com uma comenda dessas, Claro, você é vagabundo desse jeito por altruísmo, para que as mulheres não sofram, Exatamente, não posso ver uma mulher carente, sofrendo, tenho o coração mole, mas meu pau é duro, você sabe.

Quando ela disse, Eu vou foder com a sua vida, ele deveria ter levado a sério, mas não levou. Preferiu acender outro cigarro, dar uma risada e dizer, Jura? Que coisa boa, você fode tão gostoso...

Menina tem que pensar bem na encomenda que me pede, trabalhado feito eu não desfaço, e não tem Exú Caveira que desate nó que Odara amarra. Vou falar pra menina, tristezinha qualquer caboclo pouca coisa faz mulher chorar. Mas choro de verdade, choro grande de mulher bem fodida, só caboclo raro faz mulher chorar. E esse choro é coisa boa, escuta o que essa cigana fala pra menina, esse choro é coisa boa. Se soubessem como é bom e que podem, um tantão de outras meninas vinham pra essa cigana fazer trabalhado maior do que esse pra encontrar um caboclo de pica bem feita que sabe o que fazer com a dita. Difícil de achar caboclo de pica bem feita que sabe o que fazer com a dita. Se essa cigana fizer o trabalhado que menina veio encomendar, caboclo da pica bem feita vai chorar depois do estrago feito, mas menina vai sofrer mais. Pior que choro de menina por caboclo fodedor que não vale nada, é choro de menina que nunca viu caboclo que não vale nada e que sabe o que fazer com a dita da pica bem feita. Minha mula sabe o que é chorar por caboclo de pica bem feita que sabe o que fazer com a dita, e chora com gosto, por que sabe que é coisa rara. Só cigana de sandália de prata sabe como esse choro grande é bom. Só mulher de sete marido sabe como esse choro grande é bom. O que menina pedir pra Odara, pagando o trabalhado, Odara dá. Mas menina vai chorar choro maior que choro grande. Menina quer trabalhado, cigana Odara faz trabalhado. Caboclo fodedor vai chorar, menina vai chorar mais, mas menina quer trabalhado, cigana Odara faz trabalhado. Na próxima lua gorda, grande, traz pra cigana Odara as vela vermelha. Três. Traz fumador também, fumador bom, que cigana Odara gosta de coisa boa. Traz de beber, que com sede não tem trabalho que ande pra frente. Do vermelho, bebedor vermelho. Cinzano, que chama o povo da terra. Traz dois desse, que o caboclo fodedor é bom, o trabalho é grande, o choro vai ser maior. Traz dois bebedor vermelho Cinzano, como chama o povo da terra. Uma rosa vermelha. Grande, rosa grande, muito vermelha. Corpo de veludo, tem que ter a rosa. Pétala larga. Daquela bem cara. Cigana Odara gosta de coisa boa, traz daquela bem cara. Aqui nesse papel menina faz um escrivinhado com o nome do caboclo da pica bem feita que sabe o que fazer com a dita. Caboclo vai chorar, menina vai chorar mais. Traz também três pombinha branca, toda branca. Todas vivas. Bem branquinhas. Não, menina, não tem problema ser branca, o sangue delas é vermelho. Depois da lua grande é quaresma, vão trancar cigana Odara. Cigana Odara e todos os outros da esquerda. Mas no aniversário de Ogum, vai ter risoto com a carne da pombinha branca. É bom menina comer, não cura o choro grande, mas conforta um pouco. Bem pouco. Não, menina, não é só isso. Quando menina sair daqui, menina vai na casa alta, na casa mais comprida, na melhor casa comprida dessas bandas e vai guardar o quarto de rei no nome da mula dessa cigana. Quarto grande, com frente pra casa de Iemanjá, com banhado no quarto, com cama larga e vista pra casa de Iemanjá. Tudo no nome da mula dessa cigana. O nome da minha mula menina pega com o caboclinho de branco, ali do lado. O quarto tem que tá guardado no dia da próxima lua grande, gorda, quando menina trouxer o que essa cigana pediu. Sem quarto de rei, não tem trabalhado. Se menina voltar com tudo que essa cigana pediu, um minuto depois da hora alta do sol, vai estar feito o trabalhado.

Muitos anos mais tarde, ela se arrependeria de ter pisado naquele terreiro, mas na lua cheia seguinte ela voltou com tudo que cigana Odara, a Pomba Gira, lhe havia exigido. O trabalho foi feito conforme combinado, e conforme prometido, surtira o efeito solicitado.

Quando o terreiro encerrou o expediente, quase quatro horas da manhã, Maria Antônia de Souza, a mula da cigana Odara, foi com ele, que também era seu amante, até o quarto 1117 do Majestic, melhor hotel da cidade, com vista para a beira-mar norte, banheira de hidromassagem de frente para o atlântico, cama king size com lençol de fios egípcios e temperatura ambiente constantemente exata. Frigobar na conta da diária. Com ele, teve a noite mais precisa, uma quantidade obscena de orgasmos, uma saciedade indecente, que a outra, a que solicitara o trabalho, embora tenha chegado perto, não chegou a conhecer.

As doze horas e um minuto do dia seguinte, na hora precisa em que se encerrava a diária do hotel, o coração dele para com as mulheres desassistidas por seus homens, permanecia mole, mas o pau nunca mais esteve duro.

Maria Antônia de Souza, por intermédio da entidade a quem emprestava seu corpo, sabia do fatídico que acontecera ao pobre caboclo da pica bem feita que sabia o que fazer com a dita e, por isso, nunca mais tornou a procurá-lo. Sofreu aquela falta, mas nunca mais o procurou. Inevitavelmente sofreu a falta daquele homem, mas, solidariamente, nunca mais o procurou.

Ele, inocente às mandingas a que fora praguejado, desde as doze horas e um minuto daquele dia, após a noite mais indescritível que tivera ao lado de uma mulher, tornara-se inapelavelmente broxa. Já não servia tesão, baguinha azul qualquer seria capaz de remediar o que irremediável estava.

Morreu broxa, poucos anos depois, numa briga no campo de futebol. Brigar fora o prazer que lhe restara.

Ela morreu muitos, muitos anos depois. Mais anos do que gostaria de ter vivido carregando aquela cruz.

Se pudesse, compraria um Hotel Majestic inteiro, só para desfazer o trabalho. Mas estava avisada, uma vez feito, não haveria como ser desfeito.

E, para piorar, não fora comer o tal risoto de pombinha branca que anestesiaria por segundos aquela falta desumana.

Nos anos após o trabalho, teve alguns poucos prazeres, mas nenhum comparável aos que tinha com ele.

Embaixo dele.

Em cima dele.

Do lado dele.

Na frente dele.

Nunca mais nada parecido.

Morreu arrependida, sabendo do prazer que havia perdido, mas sem saber o que é pior, a consciência de ter aberto mão pra todo sempre de qualquer possibilidade de gozar mais uma vez, ou de a cada noite de lua cheia, não conseguir dormir, pois, por mais que tapasse os ouvidos, enfiasse a sua cara embaixo do travesseiro, aquela gargalhada que vinha das encruzilhadas – mesmo distantes – faziam questão de lembrá-la que nunca mais, homem nenhum a satisfaria.

Um comentário:

Jonatan Strange disse...

Aí faço a seguinte pergunte: Será que o caboblo usava a pica tão bem por saber que ia deixar de usar logo? Ou ainda: Será que não é melhor usar a pica de forma comedida para não ter nenhum trabalho nas costas?

Cada um paga os seus para proteger o que o tem...

Muito bom o texto!!!