segunda-feira, 25 de julho de 2011

Let it be (ou, I'me mine)


Se o amor tivesse forma, ele seria fálico.

Até por que, sempre acaba fodendo com a vida da gente.

Foi isso que eu disse para o espelho no dia em que você foi embora. Fiquei com mais raiva ainda pelo fato de você me ter feito chorar. Eu não gosto de chorar. Eu não sei chorar. Mesmo quando choro pouco, parece escândalo. Meus olhos incham, minha boca treme de um jeito estranho, sem ritmo, mas acelerada. Eu soluço de um jeito esquisito. Deve ser engraçado para quem vê, mas não é para mim. Eu fico muito feio, quando choro. Eu babo, quando choro. Eu detesto chorar, e naquele dia você me fez chorar. Deu vontade de te bater, deu vontade de enfiar a mão no meio da sua cara só por me ter feito chorar, mas como você mesma falou, vontade eu até tenho, o que me falta é coragem para romper a fronteira da intenção e chegar à via larga e duplicada do fato.

Cansei da sua cara, vou embora.

Foi isso que você me disse quando foi embora. Sei lá, esperava que numa eventual despedida, você usasse alguma frase deles, escolhesse uma daquelas músicas da fase final, alguma coisa triste, mas com alguma poesia. Você era boa em escolher frases deles para cada momento da vida. Não para os grandes, mas para os pequenos momentos. Como quando a gente transava, você quase lá fechava os olhos, e começava a gritar, “Shake, shake, shake baby, now!”.

Gostava daquilo. Gostava de dividir nossa vida com os quatro. Gostava da trilha sonora que havíamos escolhido.

Confesso que gosto desse tom dramático que a despedida tem. Mesmo sofrendo como uma égua que recebe o cavalo, admito que a dor do pé na bunda me é quase prazerosa, de tão intensa.

Estarei em casa. Imagino que depois de ler isso tudo, você não terá condições de vir até aqui. Mas peça, tão logo seja possível, que alguém venha buscar os nossos gatos. Ela é alérgica aos pelos, eu sei, mas nós dois os adotamos, um de nós vai ter que assumir a responsabilidade. Obviamente, eu já não terei como. Deixei bastante comida e a caixinha de areia limpa. Aliás, enchi aquela outra caixinha de areia, a primeira que compramos, também. Deste modo, caso você demore para ler este email, eles não vão sair mijando pela casa inteira. O Paul é tranqüilo, mas você sabe como o George é, se a caixinha de areia estiver suja, ele mija no sofá. Mas acho que para uns dois dias vai estar tranqüilo. O maior problema talvez seja a comida, eu coloquei bastante, seria até o suficiente para dois, talvez três dias, mas você sabe que eles não gostam de comida velha, se a ração ficar um pouquinho murcha, já não comem. Vira-latas metidos a persas...

Queria ter o dom de escrever algo tão bonito quanto eles para, de repente, fazer você mudar de ideia. Mas eu não sou escritor, sou tradutor. Não crio, só copio. Não tem nada de grandioso na minha biografia. Não escrevi nenhum livro, fodam-se as árvores do mundo e, a única possibilidade de filho que eu tive na vida você encerrou sem me consultar. Mas eu perdoei você. Perdão de merda do caralho. Perdão não é um sentimento nobre, ele é igual a mim: covarde. Perdão é falta de coragem para mandar à merda, é mais fácil fingir que nada aconteceu.

Queria que nossa despedida fosse igual a um desses filmes que gostávamos de assistir, o diretor de fotografia poderia bolar uma bela cena me filmando com a cabeça recostada no vidro do ônibus, eu de blazer de veludo e cachecol em volta do pescoço, algo assim meio inverno londrino. Mas não estamos em Londres e para que o filme fosse nosso, deveria se passar em Liverpool, não Londres. Mais do que isso, para desgraça do diretor de fotografia, fomos nos conhecer numa dessas cidadezinhas insuportavelmente quentes da parte de baixo da linha do equador. E eu não gosto de andar de ônibus, mas ando por que sou pobre, fazer o quê... E eu sei que viver assim, como um eterno aspirante à classe média-baixa, você não quer. E eu sei que viver de outro jeito eu não consigo. Ou, talvez, seja o contrário, você não consegue viver de outro jeito, e eu não quero viver. Um tanto mais apropriado, dito assim.

Rá, nada como um bom suicídio para fazer de mim um homem de coragem no ato final.

Depois do nosso primeiro encontro, achei que viveríamos felizes para sempre, apesar das diferenças. Antes de nos despedirmos você disse que se lembraria de mim em cada segundo do seu dia por pelo menos uma semana. Achei que aquilo era uma espécie de declaração de amor instantânea, dessas que queremos dizer a pessoas que conhecemos pouco, mas, já queremos bem.

Depois, quando já estávamos juntos, você me explicou que disse aquilo por que tinha azia, que sofria de refluxo, e se lembraria de mim por que meu gosto era amargo, e cada vez que o refluxo viesse você inevitavelmente se lembraria de mim. Daria até para sentir o meu cheiro no seu hálito, você dizia. Se eu soubesse que era por isso que você tinha dito que se lembraria de mim, teria preferido que você cuspisse. Mas adorei ver você engolindo.

Eu sabia, todos sabiam que você tinha recém terminado com seu amor. Não imaginava que você se interessaria por mim, afinal de contas, eu era homem. Mas você, mesmo gostando de ter o mesmo que eu na cama, sempre foi tão feminina. Ela também, mas você mais. Todo mundo te respeitava, respeitavam vocês duas, o que não significa que não quisessem, que não quiséssemos comer você. Vocês duas, até. Juntas, de preferência.

Mas no bar alguém tocava Beatles, é preciso coragem para cantar Beatles, não se deve mexer com o que é sagrado, a não ser que se tenha muita coragem. For you blue, grande música, Let it be, grande disco, nunca lhe deram o valor devido, mas é um grande disco, seu charme está exatamente na sua crueza. For you blue, o George sempre foi o melhor, eu pensava. Legal, não é o tipo de música que violeiros de barzinhos costumam tocar, eu pensava enquanto você divertia a todos com sua habitual eloquência. Eu nem sabia o que estava fazendo ali, alguém, conhecido de algum conhecido seu me convidou, como não tinha nada melhor para fazer, aceitei. Normalmente, os violeiros de barzinhos ficam na fase iê-iê-iê. Aí, quando terminou a música, o cara falou, Sei que entre suas cervejas, petiscos e flertes não darão a mínima para o que eu estou falando, mas mesmo assim farei as devidas considerações. Essa foi uma do George, mas até que é bem legalzinha. Se fosse do Paul, certamente seria melhor. Idiota, eu pensei. Você levantou e bateu palmas para ele, sozinha. Idiota, pensei pensando em você. Ninguém no bar entendeu a sua manifestação. Eu entendi. Entendi e pensei, Sapata idiota!

Cheguei a pensar que, se o cara do violão quisesse, no fim da noite ele poderia te chamar de Eleonor que você não se importaria, até por que estaria mais concentrada no que estivesse fazendo, ajoelhada diante dele.

Mas não foi diante dele que você se ajoelhou. Ponto para o George, pau no cu daquelezinho dos olhos caídos.

Lembro que neste nosso primeiro encontro, quase pus tudo a perder. Eu lá me deliciando com o talento que talvez você nem soubesse que tinha, dado o tempo que ficou ao lado dela, curtindo o seu excepcional desempenho durante um bom tempo, você devia já estar cansada de ficar olhando pra cima com olhar de safada para ver se eu terminava de uma vez, aí você parou e perguntou, Vai demorar? Eu sorri e disse, não pára beibi, Here comes the Sun! Você arregalou os olhos e disse indignada, Como é que é? Eu reparei meu ato falho, dizendo, Oh Darling, please believe me, falta pouco, não pára. Você sorriu e continuou, agora sim, satisfeita.

E namoramos. E moramos juntos. E fomos felizes. Sei que fomos. Sei que éramos, tanto quanto sei que ainda poderíamos ser. Poderíamos estar sendo, como diriam aquelas meninas que te ligavam oferecendo cartões de crédito.

Mas você sentiu falta dela e me deixou. The End, sem direito a Reprise.

E agora estou aqui te escrevendo meu email de despedida, ouvindo há horas Yesterday, só para me lembrar de você com um pouquinho mais de dor, ou por acreditar que, caso você se arrependa e resolva voltar para o meu lado, ao girar a chave na porta e ouvir esta música, vai ficar feliz em saber que estou ouvindo ele, e não aquele que era muito melhor do que ele.

Que saco, estão tocando a campainha, já continuo, depois te conto quem era.

Você?

Por que tocou a campainha, perdeu a chave?

Não, claro que não, a casa é sua, você sabe. Deveria saber.

Pois é, essa música até que é legal, admito, ouvia ele para me lembrar de você.

Não, você não está incomodando.

Você veio aqui pra isso? Tudo bem, pode pegar o que você esqueceu, é que, sei lá, vá que você tivesse mudado de ideia. Não mudou, fazer o quê...

Não precisa dizer que você ainda me quer bem, eu não te quero bem, eu te odeio, se te interessa saber. Odeio!

Pára com esse risinho debochado, olha ali para o computador, sabe o que é aquilo? Uma carta de despedida, um email de despedida, vou me matar hoje, logo depois de mandar aquele email pra você. Não acredita, olha ali, bem ali, do lado do computador. O que é aquilo? Uma arma, vou estourar minha cabeça, enfiar uma azeitona na minha têmpora, na minha testa, no meu peito, no meu céu da boca, ainda não decidi o local, mas que vou fazer, isso eu vou. Quer assistir?

Não, eu não estou brincando, vou fazer isso mesmo.

Você nunca viu uma arma? Quer ver? Sim, você pode pegar. Bonita, né? Pesada, né?

Ei, peralá, não aponta isso aí pra mim, vá que dispare. Sim, eu quero me matar, mas deixe que eu me mate, você não precisa ir pra cadeia por causa da minha dor de cotovelo. Claro que me preocupo com você, com seu futuro. Vou me matar por que te amo, porra. Não quero que você vá pra cadeia, lá é foda. Não, nunca estive lá, mas já vi muito Globo Repórter sobre isso, sei que é foda. Não que você não mereça sofrer, você merece. Mas quero que você sofra por culpa pela minha morte, não na cadeia.

Ei, pára com isso, não aponte essa arma para sua cabeça. Quem vai se matar sou eu, não você. Sei que você não gosta de se sentir culpada, é por isso que vou me matar, mas se você se matar não vai adiantar nada.

É sério, pára de brincar com isso. Isso aí é uma arma de verdade, não é brincadeira, não é de brinquedo. É sério, isso pode machucar de verdade, pára de brincar com isso.

É sério, pára de apontar isso pra mim. Pára de apontar isso pra você.

É sério, pára de apontar essa merda, um de nós pode se machucar de verdade, pára com isso, por favor.

Por que eu vou fazer isso? Por que você não tinha nada que voltar pra ela! Você era minha, só minha, você tinha que ficar comigo, só comigo! Eu era seu, eu sou seu, você é minha e ponto final! Mas, já que você não se preocupe com o que eu vou fazer, Let it be, não é você que adora o Paul?

É sério, pára de apontar isso pra mim. Pára de apontar isso pra você.

É sério, pára de apontar essa merda, pára com isso, por favor.

Let it be, não é você que adora o Paul?

E antes que o estampido do revólver espalhasse sobre a tela do computador e pelo tapete os estilhaços dos ossos frágeis da têmpora e tingisse toda a sala com o sangue vermelho escuro, quase preto, ele ainda ouviu a voz dela dizer:

Você não é meu, eu não sou sua. I me mine, não é você que prefere o George?

4 comentários:

Gabriel Felipe Jacomel disse...

SENSACIONAL!

Bruna Rafaella disse...

Sensacional...
para levantar um pouco meu ânimo!
lindo Don!!!!

Nayana. disse...

por anos e anos eu procurei uma definição, aí tu aparece com "declaração de amor instantânea"... perfeita, seu puto!

Maggie May disse...

let it be é o segundo melhor deles. o george é o meu preferido. alguem cantas beatles é quase sempre uma heresia.
mas estourar a cabeça depois de ouvir beatles está mais pra Help e John...