sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A menina dos cachinhos e o dia em que o Diabo intercedeu por Deus


Um pouco antes de fechar os seus olhinhos, ouviu sua mãe dizer que não, morrer não era uma coisa ruim. Ela não sentiria mais dor, não precisaria mais tomar aqueles remédios todos, acabariam para sempre os enjoos, as cólicas, respirar deixaria de ser tão difícil e, o melhor de tudo, os seus cachinhos nasceriam de novo, ainda mais bonitos do que antes.

Disse também que ela não precisaria ficar preocupada, pois no céu, que é para onde ela iria, não ficaria sozinha. A vovó já estava esperando por ela, e com certeza já tinha preparado os bolinhos de chuva recheados com banana que ela tanto gostava.

Sim, o seu gatinho, atropelado há uns meses atrás, também estaria lá.

E foi imediatamente após fechar seus olhinhos, que ela percebeu que já estavam lá os cachinhos e, realmente, eles estavam ainda mais bonitos do que antes. Percebeu também que não sentia mais dor nenhuma, e eram tantas as que ela sentia que mal conseguia acreditar que estava assim, em pé, se quisesse podia até correr. Não tinha nenhuma agulha na sua mãozinha, ela não precisava mais do soro que a mãe dizia ser uma sopinha que se tomava pelo braço.

Desta vez, Deus quebrou o protocolo e foi ele mesmo recebê-la. Por via de regra, são os anjos que dão as boas-vindas, recebem os justos e os acompanham até o conforto da vida eterna. Mas desta vez não, o próprio Deus fez questão de receber aquela menina tão doce, a qual ele reconhecia com uma culpa secreta que jamais admitiria, que exagerara na dose de sofrimento pela qual a pequena passara.

O abraço de Deus era muito gostoso, ele parecia um avô sempre sorridente e muito divertido. Fez brincadeiras, barquinhos de papel, ensinou-a a fazer as nuvens tomarem forma de bichinhos. Deus era muito carinhoso, e isso a fez sentir-se muito bem.

Cadê a vovó? Perguntou a pequena.

Está te esperando, meu amor, respondeu Deus.

Com bolinhos de chuva?

Sim, com bolinhos de chuva deliciosos. Eu mesmo ajudei a prepará-los, você vai adorar!

Deus pediu que ela esperasse um minuto, só queria verificar se o gatinho também estava lá.

Pela falta de prática em recepcionar os novos habitantes do céu, Deus não se deu conta de que havia deixado a porta de entrada aberta, e por ela era possível enxergar aqueles que na terra ficaram. Os anjos, experientes neste expediente, bem sabiam que antes de permitir que as pessoas se percebessem no novo plano astral, primeiro fecha-se a porta. Deus descuidou-se.

E foi na fração de segundos em que Deus foi verificar a festa de boas vindas para a menina dos cachinhos, que ela virou-se para trás e viu o desespero da sua mãe, chorando ao lado do seu corpinho em cima da cama do hospital.

Ficou assustada com a cena, não entendeu por que ainda estava careca e por que a sua mãe chorava tanto, já que fora ela mesmo que lhe dissera que morrer era uma coisa boa.

Em seguida, viu o seu pai entrar no quarto e também chorar convulsivamente.

Mas eles não se abraçaram.

Ambos estavam dilacerados por aquela dor desumana, cruel, mas com uma frieza ainda mais cruel que não lhes permitia um abraço de consolo nem mesmo numa hora daquelas.

Quando Deus virou-se para ela, percebeu o descuido e tratou de fechar logo a porta.

Venha, minha querida, você não deve ver isto, Por que eles estão chorando? Não se preocupe, vai passar, Eu não quero que eles fiquem tristes, fui eu que deixei eles tristes daquele jeito, Não, minha querida, a culpa não é sua, É sim, se eu não tivesse vindo pra cá eles não iam estar chorando desse jeito, a culpa é minha, Não, minha pequena, a culpa não é sua, se alguém é culpado, sou eu, Você não gosta deles? Claro que gosto, mas isso não é assim tão simples, Eu não quero que eles fiquem tristes, Eles vão ficar bem, acredite em mim.

Quando Deus pegou novamente na sua mãozinha para levá-la até a avó, ela abaixou-se com a outra mão no estômago, dobrou os pequenos joelhinhos e para espanto de Deus, começou a vomitar.

Deus ficou assustado, não entendia o que estava acontecendo. Passou o seu lenço divino sobre a testa suada, foi lhe fazer um afago e percebeu que os cachinhos começaram a cair na sua mão. Em poucos segundos, apenas alguns poucos fios de cabelos cobriam a sua cabecinha, e já notava nos seus olhinhos as olheiras profundas e negras de minutos atrás, quando ainda habitava o mundo dos vivos.

Ela agora chorava de dor, sentia muita dor e Deus não tinha os remédios dos homens que amenizavam aquela dor.

Deus entrou em desespero, chamou a avó da menina. Ela veio, a menina tentou sorrir, mas a dor era muita.

A avó, que até então vivia na mais plena das felicidades no paraíso, começou a gritar com Deus, O que você fez com ela? O que você fez com a minha netinha?

Não sei, eu não sei o que está acontecendo, dizia Deus, já prestes a começar a chorar também.

Não fazia sentido, aquilo não era para estar acontecendo. Os anjos não entendiam o olhar assustado que Deus lhes direcionava, como quem pede ajuda. Como eles poderiam dar respostas Àquele que formulara todas as perguntas?

Em questão de segundos, o céu inteiro já estava ciente do desamparo de Deus e, quanto mais ele se angustiava com aquele inexplicável sucedido, mais a menina parecia adoecer. Mesmo que fosse impossível haver ar mais puro do que aquele que havia no céu, a cada instante a respiração da menina ficava mais difícil e visivelmente dolorida. Seu pequeno peito contraía-se numa asfixia muito mais sentida do que a terrena.

Foi então que o Diabo veio bater às portas do céu. O desespero de Deus era tanto, que ele sequer teve condições de repreender o anjo excluído pela sua ousadia.

O que você quer aqui, veio rir do meu infortúnio?

Vim Lhe ajudar.

O quê?

Eu posso fazer essa dor parar.

Você tem os remédios que os homens inventaram?

Não, isso pertence só a eles. Você lhes deu a inteligência, mas ao oferecer-lhes também o livre arbítrio, cedeu exclusivamente a eles as conseqüências que provém da inteligência. As fórmulas dos remédios, a dosagem, isso tudo só eles possuem. Nenhum de nós, nem mesmo o Senhor, tem poder sobre o que a inteligência, fruto do livre arbítrio, da escolha em fazer e dar utilidade para as coisas, produz.

Então você não tem nada o que fazer aqui, volte para as profundezas do seu lar que eu descobrirei um meio de salvar a minha menina.

Você não tem como fazer isso parar.

Por quê, se eu tudo posso?

O livre arbítrio, ele Lhe impede. Mas dê a alma dela para mim, que eu faço essa dor parar.

Não faz sentido, isso não faz o menor sentido, não há algo que você possa que eu não possa mais ainda!

Você sabe, ela não tinha por que adoecer. Não havia predisposição genética para o câncer. Ela escolheu adoecer.

Por quê? Por quê uma menina de seis anos escolheria tanta dor.

Por causa dos pais.

Como?

Os pais se separaram há doze meses atrás, depois de dois anos de agressões mútuas. Ela presenciava tudo, a dor dos dois que, por mais que se amassem, não conseguiam mais se suportar desde que o dinheiro acabara, conseqüência da falência da loja dele, provocada pela enxurrada que Você fez cair sobre a terra num novembro de três anos atrás.

O que uma coisa tem a ver com a outra?

No meio de uma das tantas brigas que houve nesse tempo todo, teve um dia que ela pegou uma gripe muito forte, Você deve estar lembrado. Nesta oportunidade, ela percebeu que os pais pararam de brigar para unirem forças pela convalescença dela. Tão logo ela melhorou, as brigas retornaram a rotina da família.

Isso não pode ser verdade.

Mas é. Foi pouco tempo depois que ela, por livre escolha, optou em adoecer de uma maneira tão intensa que fizesse com que seus pais parassem de brigar por mais tempo. E deu certo. Nesse tempo em que ela esteve doente, antes de morrer, os pais não brigaram mais. Apenas concentraram todas as suas forças na busca por uma cura para o câncer que a devorou em menos de um ano. A vontade dela em ver os pais em paz era tão grande, que não sobrou força dentro dela para fabricar a cura para a doença que ela mesma criou.

Mas isso já passou, foi na terra, não faz sentido ela continuar a sofrer aqui, nos meus braços, onde tudo é amor.

Mesmo aqui, ela ainda tem direito ao livre arbítrio. Disseram-me que Você esqueceu a porta aberta e ela presenciou os pais chorando, mas distantes um do outro. Agora ela adoeceu novamente, pois acredita que assim eles hão de se aproximar mais uma vez.

Eu não posso entregá-la a você.

Então terá que se acostumar em vê-la sofrendo por toda a eternidade e, acredite, essa dor só vai aumentar.

Não, isso não pode, eu não posso permitir que isso aconteça.

Você não tem como impedir, é uma escolha dela.

E como você pode mudar isso?

Na minha casa, quem manda sou eu. Minhas almas não têm escolha, elas fazem e sentem o que eu quero que elas sintam.

De que adianta ela parar de sentir estas dores, e passar o resto da eternidade ardendo nas labaredas do seu porão?

Você nunca esteve na minha casa. Quem disse que os meus vivem em labaredas, foram os Seus escritores, mas nenhum deles jamais esteve lá. Venha comigo, traga-a até a minha casa e veja com Seus próprios olhos como vivem aqueles que foram condenados ao meu porão.

Deus pegou-a nos braços e foi com o Diabo até o inferno.

Ficou estupefato com o que viu. Ninguém chorava, não havia ranger de dentes, não havia enxofre e, aqueles que lá viviam, eram felizes.

O que é isso? Perguntou Deus.

É o meu porão.

Por que todos estão felizes?

Por que eu quero, e não lhes dou outra opção.

Mas o livre arbítrio é uma benção!

Nem toda benção é necessária.

Por que você faz isso?

Pelo Seu perdão.

Não era mais fácil ter me pedido diretamente?

Você Se recusa a me receber.

Eu achei que você queria o meu lugar, queria ser o novo senhor de tudo.

Não, eu só quero as coisas como eram antes. Era muito bom viver ao Seu lado. Por isso, com o poder que me sobrou, fiz com que aqui se tornasse o mais parecido possível com a Sua casa.

E de que modo ela vai parar de sofrer se passar a viver com você?

Ela não vai ter escolha. Aqui ninguém sofre. Aqui, ninguém se lembra de quem era, com quem vivia, o que fazia. Aqui as almas simplesmente vivem felizes umas com as outras, não lhes dou outra opção.

Mas o que você me fez foi muito grave, não sei se lhe darei o meu perdão assim tão facilmente.

Nem por ela?

Sim, ela merece, mas você não.

Já estou acostumado com o Seu sacro-santo rancor. Interfira então no livre arbítrio dos pais da menina, e faça com que eles se entendam.

Eu não posso tirar uma graça que eu mesmo concedi. Não posso interferir em uma ou duas pessoas, e negar essa interferência aos demais.

Mas eu posso. Se Você me permitir interferir na terra, eu mesmo faço esse trabalho que Você considera sujo. Já estou acostumado com a má fama que me é atribuída.

E o que você vai ganhar com isso?

Nada. Também já estou acostumado a isso. Quando ganho alguma coisa, são as más almas. As mais cruéis, as vis, e cabe a mim o trabalho de modificá-las e fazer com que vivam na harmonia que eu, e não elas, escolhi para o meu porão.

Que assim seja feito.

Depois que desceu a terra e interferiu no livre arbítrio do casal, o Diabo mandou um bilhete para Deus, pedindo que Ele deixasse a menina espiar mais uma vez pela porta do paraíso.

Prontamente a menina começou a convalescer, assim que vira os pais abraçados carinhosamente no seu velório. Percebeu que o amor que sentiam se sobrepusera as desavenças, e agora um seria a força que faltava ao outro para superarem a perda da filha tão amada.

Depois disso, a menina pode enfim ser plenamente feliz por toda a sua eternidade ao lado dos que a amavam e já habitavam o paraíso a mais tempo, inclusive do seu gatinho.

Quando o Diabo voltou para o seu porão, um dos seus asseclas se aproximou querendo confortar-lhe pela dor que sabia que estava sentindo.

Não fique assim, meu amigo. Desista dessa ideia fixa de voltar a viver ao lado Dele. Ele é amor, mas não sabe perdoar. Há mais valor nos seus atos do que nos Dele. Você errou e se arrependeu, Ele deveria lhe perdoar, até para dar o exemplo.

Não fale assim, Ele é uma pessoa boa, só está magoado. Um dia a gente se entende. Não foi dessa vez, mas um dia a gente se entende. Ter consciência do meu erro não faz de mim menos culpado. Todo erro é justificável, mas isso não torna o erro necessariamente perdoável. O ofensor nunca sabe a dimensão do estrago que vai causar no peito do ofendido. O perdão não pertence a quem ofende, é um presente que só ofendido pode dar.

Quando escureceu no porão, o Diabo se recolheu sozinho, sentindo a maior saudade que nenhuma outra criatura jamais sentira.

Lembrou-se do dia em que foi expulso do paraíso por invejar a alma que os humanos receberam em detrimento dele e dos demais anjos.

Felizes dos humanos que têm a escolha, e podem até Lhe negar, pensou o Diabo. A mim, que não tenho como optar, só me resta continuar Te amando.

Naquela noite, o Diabo dormiu chorando baixinho.

4 comentários:

Shuzy disse...

Viajei nesse aqui...!
Como é que vc consegue misturar tantos sentimentos desse jeito, hum?

A Noiva Cadáver disse...

Alter-ego?

Bruna Rafaella disse...

Você tem algum livro seu??
preciso ler suas obras!
muito bom, viagei na história...

Beijo bom final de semana!

Jorge Scarpin disse...

Olá, sou do blog http://professorscarpin.blogspot.com. Estou concorrendo também ao topblog, na área de Economia.
Adorei o seu blog e já votei. Espero sua visita. Para votar no meu blog, pode ir pelo blog ou então no link http://www.topblog.com.br/2010/index.php?pg=busca&c_b=23111150.
Um grande abraço,


Jorge Eduardo Scarpin