segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Marido


Bota mais uma, disse ao garçom.

Acomodado no vexatório estágio em que as sucessivas doses fazem do comportamento inconveniência, fazia piadinhas grosseiras para as mulheres que passavam por ele, colocando-se sob o constante risco da agressão que algum dos tantos acompanhantes destas mesmas mulheres pareciam dispostos a oferecer-lhe sem receber nada em troca. No máximo, o sangue de um dente quebrado, ou coisa parecida.

Apoiou o seu queixo sob a palma da mão esquerda, enquanto com a direita girava reflexivo o whisky do copo, lembrando dos tempos de namoro, como ela era linda. Lembrou de como ela lhe abraçou emocionada, já há muito tempo, dizendo que era a primeira vez que um homem lhe enviava flores. E lembrou do perfume que ela usava, do jeito que usava uma presilha simples e delicada para prender os cabelos sempre macios, lindos como era ela toda. Lembrou de como ela veio tremendo de medo, temendo ser repreendida pela inadequação do momento, já que passavam por severas restrições orçamentárias no segundo ano de casamento, contar-lhe que estava grávida pela primeira vez. Lembrou de como explodiu de felicidades quando soube que seria pai, e de que fora o filho o gatilho para que mudasse de vida, de trabalho, que fez com que se tornasse um profissional incansável, com coragem em abandonar um serviço de escritório para enveredar-se pelo mundo das vendas, pois sabia que só vendendo, ele mesmo poderia fazer o seu salário, e ganhar o suficiente para que nunca nada viesse faltar à ela e à criança que trazia no ventre. E lembrou de como passou a trabalhar ainda mais no dia em que soube que outra criança estava a caminho, e de como cada vez que chegava em casa, a via conversando com o pequeno primogênito, tentando convencê-lo de que ter um irmãozinho é coisa muito boa, e eles, os pais, não gostariam menos dele por causa do novo membro da família. E virou de uma só vez o copo de wiskhy, na expectativa de que o álcool da bebida amortecesse a saudade que sentia da esposa.

Bota mais uma, disse ao garçom.

Enquanto a bebida âmbar caía sobre o copo já sem gelo, tantas foram as doses, lembrou-se de que, embora a beleza dela fosse indescritível, das feições delicadas do rosto lindo ao corpo apetitoso como uma afronta à civilidade, fora o sorriso que o cativara. Um sorriso largo e branco, dentes de um alinhamento irretocável e uma luminosidade de comercial de pasta de dente. E lembrou-se de como, além de linda, ela trazia como itens de série também todos os aspectos emocionais e comportamentais que os homens sempre sonham em encontrar numa mulher. Lembrou-se de como ela se dedicava com afinco em aperfeiçoar cada vez mais seus dotes culinários para que, cada vez que ele voltasse, tivesse à mesa não um prato de comida, mas uma experiência gastronômica tão prazerosa que lhe fizesse esquecer nem que fosse por alguns poucos minutos, do stress que aquela vida tão corrida lhe enfiava goela abaixo. Companheira para todas as horas, compreensiva, carinhosa, inteligente, culta, ótima conversa, e, quando a urgência dos instintos lhe furtava a racionalidade, lá estava ela disposta a saciá-lo do modo como ele tivesse vontade. Lembrou que ela fazia isso por amor, e não sabia se alguma outra mulher o amaria daquele modo tão intenso, dedicado e verdadeiro. E virou de uma só vez o copo de wiskhy, na expectativa de que o álcool da bebida amortecesse a saudade que sentia da outra.

Bota mais uma, disse ao garçom.

No momento em que o garçom virava a garrafa para servir-lhe mais uma dose, sentiu uma sensação estranha e uma mão puxar-lhe o ombro esquerdo, dizendo, Fique tranqüilo, já, já isso passa, e arregalou os olhos cheios de susto e surpresa, ainda sem entender nada direito, quando deu-se conta que era ela que estava ao seu lado.

5 comentários:

digao fala pessoa disse...

Um alguem especial,sempre presente,que nos apoia em tudo ,mas nos pede tao pouco, mesmo assim as veses nos passa despercebido o verdadeiro valor que esta(e)nos tem, mesmo sabendo,pouco as(os), valorizamos.mas uma perda nos fas lembrar dos minimos detalhes, e fas doer mais ainda saber que um pequeno gesto de diser eu te amo faria grandes diferenças...

Karoliny S. Coelho disse...

E a cada texto minha dúvida aumenta. Com quem ficará o marido?
O negócio é esperar para ler...
Música perfeita!!!

Letícia Palmeira disse...

Não li A Esposa. Preciso ler. E a música é típica de boteco e fim de jornada.

Prosa romântica de amor que existe. Gostei.

E o meu livro predileto chegou.
Estou lendo.

Beijos.

Jonatan Strange disse...

Porra, e os cravos vermelhos? E a vadia da amante? E a vadia, da vadia, da segunda amante? Ficou muito fronha. Parecido com aqueles romances de banca de revista do tipo "Sabrina". Só falta agora um final bonitinho e eles fazendo um amorzinho gostoso...

Bruna Rafaella disse...

Olha se esse infeliz acabar ficando com as duas, ou as três meu...
Ele não tem que se lamentar, seria mais óbvio se ele se matasse, mas ai ia parecer um texto mexicano, com palavras piegas.
Sei lá no que isso vai dar, você sempre me surpreende mesmo.

Beijão!!!!!