quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Por que escolhemos parto normal, e a proteção que gostaria de dar às mulheres que eu amo.



Por que parto normal dói?

20% da dor que é sentida, é física. Está ligada diretamente as contrações, ao estica e puxa dos músculos uterinos, daquele movimento que significa que o seu bebê está dizendo: mamãe, tô pronto, me tira daqui?

Esses 20% são equivalentes a dor da partida do seu filho já crescido, da sua casa para uma aventura de intercâmbio num país distante. Você está cheio(a) de orgulho por ver aquele moleque que até pouco tempo corria de fraldas no seu quintal, e que agora começa a virar adulto todo cheio de coragem para desbravar um mundo distante, mas ao mesmo tempo está com aquela dorzinha no coração, vontade de pegá-lo mais uma vez no colo e dizer, vem cá, fica aqui que eu te protejo. Você sente a dorzinha, mas mesmo assim incentiva seu menino a se mandar, aprender com os próprios erros, se precisar, ligar que terá sempre algum conselho ou uma graninha extra a ser depositada em momentos de aperto.

A dorzinha equivale a 20%, o orgulho é 80%.

No parto normal, a proporção é parecida.

20% do que a mulher sente, é de fato dor física. O corpo se esticando todo para poder trazer ao mundo o bebê, mas 80% da dor divulgada, propagada, é falta de informação ou informação errada tomada como certa. É não saber o que vai acontecer

Hoje, no nosso país, de cada 100 partos, 80 são cesáreas.

Sabem por quê esta discrepância? Por que não temos acesso à informação, ou por que nos acomodamos em aceitar como certa a primeira informação que nos é passada, mesmo que superficialmente.

Em países mais instruídos do que o nosso, esta proporção é inversa, ou melhor é inversamente maior. No Japão, de cada 100 partos, apenas 7 são cesáreas. Sabem por quê? Por que lá, culturalmente, o parto não é apresentado às mulheres como um momento de sofrimento, e sim como um momento de esperança, de alegria.

Sim, o nascimento aqui também é tratado como alegria, mas o parto, em si, não.
Por isso, numa intenção de supostamente fazer diminuir o sofrimento das mulheres, o parto normal é tão desprezado, tratado como coisa das cavernas ou de hippies desinteressadas no conforto da anestesia.
A grosso modo, o parto é tratado como uma espécie de obstáculo entre a preparação e a chegada do bebê, uma coisa ruim entre mãe e filho, mas que tem que ser vivenciada por que sem este sofrimento, nada acontece.

Muito disso, é cultural, ocidental.

No oriente, onde a cultura cristã não é predominante, o sexo não é pecado. Pelo contrário, ele é cultuado. O Kamasutra, tão propagado, é vendido de maneira errônea para nós ocidentais. A menor parte dele trata das posições sexuais, a sua maioria trata do amor. Mas nós crescemos com a ideia de que o sexo é sujo, que as mulheres sofrem por que aquela criança que nasce já nos vem aos braços marcadas pelo pecado original. Uma pena que sejamos tão travados quando o assunto é sexo, fôssemos mais libertos a tratar deste assunto, seríamos mais felizes em todo o resto.

Não, não estou fazendo da minha argumentação em defesa do parto humanizado um pano de fundo para falar mais uma vez do meu ateísmo, não tem nada a ver. Estou falando dos aspectos culturais mesmo. Todos somos, em algum grau, travados. Cabe a nós buscarmos as chaves para destravar estas trancas da nossa castração emocional coletiva.

Por falta de informação e por termos crescido ouvindo dizer que a dor do parto é a pior dor que existe, repudiamos o parto normal encontrando na cirurgia cesariana, o elixir para as agruras da hora do parto.

Contudo, é importante termos consciência de que a cesárea é uma cirurgia de média complexidade, acompanhada por todos os riscos que envolvem um procedimento deste porte, desde consequências desastrosas por uma anestesia mal aplicada, até uma eventual infecção hospitalar.

Cirurgias são procedimentos indicados para correção de algo que não está em conformidade com o que se espera do nosso corpo. Pode ser a retirada de um tumor prestes a se tornar um câncer, uma unha encravada, uma ponte de safena ou mesmo lipoaspiração para uma pessoa que não se julga esteticamente atraente. Todas são correções de imperfeições.

Um nascimento não é uma imperfeição, ele não precisa ser corrigido.

O parto é a etapa final do processo, e como todo o processo envolve dificuldades e belezas. Como o enjoo, como os pés inchados, como a dificuldade para encontrar uma posição melhor para dormir. Mas ele não é um problema a ser corrigido. Logo, a não ser que a vida da mãe ou do bebê esteja correndo risco, não há argumento que justifique a escolha de uma cirurgia cesariana em detrimento do parto normal. O risco, numa cirurgia cesariana, é sempre muito maior do que num parto normal. A não ser que a mãe previamente já apresente algum quadro de hipertensão arterial, diabetes ou algo que possa comprometer sua integridade física no ato do nascimento, nada justifica.

Contudo, ainda que não se justifique, a decisão final deve ser da mulher, e deve ser respeitada, seja ela qual for. É o corpo dela, são as emoções dela que estão em jogo. Aquilo que a deixar mais confortável e segura, deve ser apoiado e respeitado. Contudo, antes da decisão ser tomada, é importante que se tenha muita informação acerca de cada uma das duas possibilidades para que se saiba exatamente as vantagens e os riscos de cada uma das opções.

O pavor, a ojeriza que se tem do parto normal é por falta de informação, ou ainda, pela propagação de experiências ruins, como se fossem elas o normal.

Sou o quarto de cinco filhos. Eu e minhas três irmãs anteriores a mim, nascemos de parto normal. Meu irmão caçula, nasceu de cesárea. Todos crescemos ouvindo minha mãe relatar o quanto sofreu para ter a mim e minhas irmãs, e como foi tranquilo o nascimento cirúrgico do meu irmão. Até então, antes de estar esperando a Clara, para mim sempre foi óbvia a opção pela cirurgia cesariana. Não queria que minha esposa sofresse como minha mãe sofreu. Mas, depois que engravidamos, depois que a Priscilla me mostrou um monte de coisas sobre o parto normal que eu desconhecia, depois de uma série de conversas com nossos obstetras, eu vi como estava mal informado.

Infelizmente nosso sistema de saúde é precário, não está preparado a lidar com seres humanos. Nossas maternidades e suas respectivas equipes não estão preparadas para lidar com um nascimento, estão preparados para lidar com doenças. Logo, mais fácil do que lidar com um parto normal, é lidar com uma cirurgia.

Numa maternidade pública, por via de regra, as mulheres são preparadas para o parto do mesmo modo que um outro paciente é preparado para retirada da apêndice infeccionada.

Bebês não deveriam nascer em centro cirúrgico.

A mulher está prestes a passar por um momento extremamente íntimo e delicado, e se depara com um ambiente totalmente hostil, frio, com luzes claras e paredes excessivamente brancas, um tanque de aço inoxidável a espera do primeiro banho do seu bebê.

Numa sala de parto de verdade, a luz pode ser regulada, a mulher pode caminhar pela sala, ela pode optar ter o seu bebê numa banheira, de cócoras, deitada, pode contar com a ajuda de uma bola de pilates, enfim, todo o ambiente é preparado para ela e para o seu bebê. Há conforto e aconchego.

Há pouco tempo mencionei o vídeo produzido pela Ligia Moreiras Sena sobre violência obstétrica. Aquilo ali é triste e ao mesmo tempo escancara para todos nós uma realidade que evitamos contato, fingimos não ver ou simplesmente realmente não temos acesso, mas ela existe.

Depois que assisti ao vídeo, fiquei com vontade de chorar pensando na minha mãe. Agora, quando escrevo, de novo fico com um nó na garganta.

Minha mãe é uma mulher muito forte. Nem sei descrever o quanto eu admiro aquela mulher. Não vou aqui listar as diversas vezes em que teve que se superar, mas acreditem, quem vê hoje o amor, o carinho, o sorriso lindo que ela dá cada vez que faz alguma coisa para um dos netos, uma boneca, um bolinho de chuva, uma brincadeira, não imagina quanta coisa ele teve que superar para chegar até aqui. Minha mãe superou adversidades que eu não seria capaz sequer de encarar. Mas ela superou e, junto do meu pai, criou cinco filhos numa época de inflação a 80% ao mês, e mesmo assim nunca nos faltou nada. Se hoje escrevo, é graças a ela. Poderia não me dar todos os brinquedos que eu gostaria de ter, mas nunca me disse não quando pedia um livro de presente.

Mas minha mãe tem pavor de parto normal. Sabe por que? Por que ela com certeza sofreu muita violência obstétrica para nos ter. Talvez ela não saiba, talvez não tenha se dado conta, mas para que um parto normal se torne trauma, é preciso muito desamparo.

E o desamparo se dá de diversas maneiras.

Aquele vídeo traz o depoimento de mulheres que tiveram experiências de violência obstétrica recente, mas minha mãe teve quatro partos normais na década de 70, lá a coisa provavelmente era ainda mais bruta do que é hoje.

Numa maternidade convencional, qualquer menor demora no aguardo da dilatação necessária, já é resolvido com a episiotomia, um corte que é feito no períneo da mulher para – em tese – facilitar a descida do bebê. Acontece que este corte não é necessário, ou se for, será num número ínfimo em relação ao total de mulheres que o recebem.

Ele é uma mutilação.

Ele pode afetar para sempre a sensibilidade da mulher naquela região.

Ele pode tornar desconfortável o sexo após o nascimento do bebê, e erroneamente atribuem ao parto normal, e não ao corte, uma eventual perda de sensibilidade da mulher.

Numa maternidade pública, se houver demora no trabalho de parto, haverá também troca de turnos, diferentes pessoas passarão pelo centro cirúrgico onde a sua mulher vai estar, boa parte destas pessoas tocarão a sua mulher que estará vulnerável física e emocionalmente. Ela se sentirá invadida, tratada como um pedaço de carne prestes a fazer brotar outro pedaço de carne, pois as pessoas não olharão para ela com carinho, mas como mais um número na estatística.

Além destes estranhos que entrarão e sairão do local onde a sua mulher vai estar, muitos deles não permitirão que você, homem, esteja ao lado da sua mulher, enxugando-lhe a testa, apertando sua mão, fazendo um carinho nos seus cabelos, simplesmente estando ao lado dela para que se sinta segura. Até pouco tempo, a presença do homem na hora do parto era proibida por lei. Uma lei que deveria ser um crime a constar na lei Maria da Penha. Ainda hoje, muitas maternidades proíbem a entrada do marido na hora do parto, o que não deixa também de ser uma violência obstétrica contra o casal, não só à mulher, mas ao homem também, pois naquele momento também estamos emocionalmente vulneráveis.

Num parto normal habitual, igual aos que a minha mãe teve, a mulher é colocada deitada numa maca para que a posição seja ergonomicamente mais confortável para o médico. Só não há a preocupação de observar o que é mais confortável para a mãe e para o bebê. Naquela posição o médico estará de frente para o gol, mas será muito mais dolorido para mãe e trabalhoso para o bebê. Questão de física, de anatomia. Estando a mãe deitada, o esforço do bebê será muito maior, ele terá que fazer uma curva para chegar à vagina da mãe e finalmente vir ao mundo. E, normalmente é em decorrência desta dificuldade, que muitos médicos sacam seus bisturis e recorrem a episiotomia, mutilando mulheres que, estivessem de cócoras ou sentadas, teriam muito mais facilidade em trazer ao mundo seus bebês, pois nestas posições o esforço do bebê é anatomicamente menor e ainda contariam com o auxílio luxuoso da lei da gravidade. Mas não divulgam isso, apenas dizem que as mulheres parecem índias, como se isso fosse defeito. Por que não aprendermos com índias que, sem qualquer estrutura, sabem qual o jeito mais fácil, rápido e menos dolorido de parirem seus indiozinhos?

Depois de nós cinco, mais quatro crianças chegaram à nossa família, todas através de cirurgia cesarianas. Se a experiência da minha mãe tivesse sido diferente, talvez o parto dos meus sobrinhos também fosse. Mas não estou culpando minha mãe por isso, pelo contrário. Ela não é culpada, ela é vítima. Vítima de todo um sistema que não se preocupou em nenhum momento em suavizar aqueles 20% de dor física. Fez com que eles parecessem 100% ao não oferecer à ela uma experiência bonita através do parto normal. Todo o somatório de fatores que eu falei, maximizam o peso que a dor realmente tem.

Quando digo que fiquei emocionado, é por que amo desmesuradamente a minha mãe. Quando vi o documentário e pensei nas experiências que ela teve, me deu uma vontade enorme de ter estado ao lado dela em cada um dos nascimentos, de ter segurado a sua mão, ter feito uma massagem, um carinho, ter feito a respiração cachorrinho junto dela, de dizer sorrindo para que ela ficasse calma, que aquilo passaria rápido. 

Queria ter protegido a minha mãe. Queria ter dado para ela todo o amparo que ela sempre me deu e dá. Minha mãe é tão importante para mim, que não gostaria que uma experiência natural lhe parecesse mais penosa do que uma intervenção cirúrgica. E gostaria de ter feito o mesmo pelas minhas irmãs.

Gostaria que elas tivessem conhecido os nossos obstetras.

Gostaria de ter tido a oportunidade de lhes apresentar os livros que nossos amigos nos apresentaram.
Essas mulheres, minha mãe e irmãs, são fundamentais na minha vida, elas me ensinaram como é que uma mulher merece ser tratada.

A dor da hora do parto não se resolve na hora do parto, mas durante toda a gestação, gostaria de ter estado mais presente para contribuir de uma maneira diferente, e não apenas como um tio que dá camisas de futebol para os bebês.

Mas como não dá para voltar atrás, apenas tento fazer pela Priscilla tudo o que eu gostaria que tivessem feito pela minha mãe e irmãs. E também não estou culpando meu pai e cunhados por isso, eles também não tiveram acesso as mesmas coisas que eu estou tendo oportunidade de ter. São todos ótimas pessoas, eu que talvez seja protetor demais.

Julgo importante trazer este assunto, pois como disse no começo dos trabalhos do Diário do Papai, espero que estes textos contribuam para que outros pais vivenciem a experiência da paternidade de uma maneira mais participativa, mais ativa, como parte do processo, não apenas como espectador dos acontecimentos.

Nós, pais, somos peças fundamentais para que a experiência do parto normal seja algo positivo, para que nossas mulheres saiam da maternidade não com a sensação de terem sentido a pior dor que se pode sentir, e sim a melhor dor que se possa sentir.

Pais presentes durante a gestação, ajudam a mulher a se preparar, se preparam juntos.
Se o galo fosse mais companheiro e participativo, o ovo e a galinha não viveriam no eterno dilema para saber quem veio primeiro, pois teriam a consciência de que são uma família, e não partes dissociadas de um mesmo fim.

Mas, repito, embora tenhamos escolhido para receber a nossa Clara através do parto natural, e defendamos esta escolha por acreditarmos ser a melhor para todos, caso a escolha da mãe seja pela cirurgia cesariana, esta escolha deve ser respeitada e apoiada.

Respeito ao parto é respeito à mulher!

3 comentários:

Gabi Kniest disse...

Muito bom, David! Vou mostrar para o futuro pai dos meus filhos quando engravidar! ;)

Profª Gisele disse...

David, eu fiz o parto normal e concordo com muita coisa. Dá de ver a tal dor com outra perspectiva, mas não se engane, é dor mesmo, dói pra caralho, dói muito, muito mesmo! Quando se tem boa informação essa dor é minimizada pela força que a gente tem em superá-la. A gente entende a ocitocina, a gente ama a ocitocina, a gente ao inves de pensar é mais uma dor, pensa "meu filho tá quase vindo", quanto mais forte a gente pensa "é porque meu filho tá chegando". A gente não pensa em dor, a gente pensa em contração e ama a contração, pq o filho vai chegar. MAS DOI PRA CARALHO!!! Não quero assim desestimular, bem contrário... se é que dá de entender. Faria todos os meus partos normais, sempre! É a melhor sensação do mundo, mas dói, dói sim!!!! Beijocas!!!!

Se não quiser publicar por achar que pode desestimular quem lê, sinta se a vontade, que não ficarei chateada não, bem pelo contrario!

Ana Baron disse...

Maravilhoso texto!!!