quarta-feira, 28 de julho de 2010

Casamento, amor ou sexo?


Eugênia Maria era casada com Venceslau Augusto.

Aquela paixão toda que levara-os ao altar jurar um ao outro amor eterno e fidelidade inquebrantável, já arrefecera há alguns anos, mas era pacífica a convivência. A tranquilidade de uma vida já estabelecida, situação econômica confortável, substituía satisfatoriamente bem o velho ardor da paixão.

Era boa a companhia que um fazia ao outro, respeitavam-se e até admiravam-se. Mas Eugênia Maria, que sempre fora mulher de um fogo inesgotável, há alguns anos sentia falta de alguém que a desejasse com o ímpeto que Venceslau Augusto a desejara nos longínquos anos de namoro.

Sendo assim, há pouco mais de um ano mantinha um caso extra-conjugal contínuo e periódico.

Carlos Adolfo sentia-se sinceramente culpado. Tinha sido padrinho de casamento, mas não conseguia manter-se longe de Eugênia Maria. Por mais que seus sentimentos fizessem-no sentir-se o maior cafajeste de todos os tempos, não conseguia parar de pensar em Eugênia Maria. Ele que sempre fora um solitário por vocação, sequer apaixonara-se por quem quer que fosse, não sentia-se atraente, interessante, não via em si próprio qualquer predicado que pudesse chamar a atenção das mulheres, apaixonara-se justamente pela mulher do seu melhor amigo, Venceslau Augusto.

Nos braços do amante, Eugênia Maria saciava-se intensamente. Realizava com ele loucuras que sequer imaginara ousar com Venceslau Augusto. Sentia um prazer tão intenso com as obscenidades que seu amante lhe falava aos ouvidos, que deixaria suas amigas chocadas. Ele virava-a do avesso, tinha uma agressividade que a enlouquecia. Ouvi-lo chamando-a de “minha putinha”, “vagabunda”, “safada”, senti-lo puxando seus cabelos, impingindo na pele branca da sua bunda uma tatuagem provisória e vermelha da sua mão espalmada, era prazer proporcional aos vários apoteóticos orgasmos que ele lhe dava a cada encontro.

Carlos Adolfo sofria uma dor desumana, ao pensar que magoaria seu melhor amigo. Não conseguia imaginar sua vida sem aquela amizade dos tempos de faculdade. Contudo, ainda mais difícil era imaginar sua vida longe de Eugênia Maria e, pela maneira com que seus olhares se fitavam em encontros sociais onde estavam todos os amigos reunidos, acreditava que ela deveria nutrir por ele um sentimento parecido. Resolveu procurar aconselhamento espiritual com alguém que saberia o que lhe dizer, até por conhecê-lo desde que nascera.

Procurou Padre Aloísio, seu irmão mais velho, um homem muito sábio, tranqüilo e capaz de compreender as agruras das almas dos outros através do dom do sacerdócio com que fora tocado ainda muito novo, e contou a ele seu martírio, em segredo de confissão.

Com um semblante sereno e apaziguador, Padre Aloísio ouviu de dentro do confessionário todo o infortúnio que tornara a vida do seu irmão um verdadeiro inferno. Escutou atentamente cada detalhe dos devaneios de Carlos Adolfo e dos planos que tinha de fugir com Eugênia Maria, mesmo sem saber se ela aceitaria abandonar sua vida tão tranqüila para viver uma aventura amorosa, já divisando a casa dos quarenta anos.

Pela expressão contrita de Padre Aloísio, Carlos Adolfo presumiu que o irmão-sacerdote estava dividido entre cumprir a sua missão eclesiástica de defender a sagrada instituição do matrimônio, ainda mais um matrimônio que ele mesmo celebrara, ou pender mais para a amizade terna que desde a infância tinha com seu irmão caçula, aconselhando-o a cair de cabeça naquele amor tresloucado e viver um sentimento que, até então, nunca se havia permitido viver. Afinal de contas, não seria aquele o primeiro casamento desfeito, e certamente não seria também o último.

Saiu de dentro do confessionário e abraçou com carinho o seu irmão caçula, afagou-lhe os cabelos e aconselhou-o a rezar, rezar bastante, pois certamente alguns dias de retiro espiritual seriam suficientes para que a sabedoria divina lhe indicasse o melhor a ser feito. Ele não ousaria dizer-lhe o caminho certo a escolher, até por que pela vocação assumida, tinha obrigação de defender aquilo que pregava todos os dias, não poderia ser ele a pessoa a ir contra a sua própria fé. Mas, por outro lado, entenderia e perdoaria o irmão, caso sua decisão fosse diferente da resignação.

Embora tenha saído sem uma resposta objetiva, Carlos Adolfo sentiu-se um pouco mais reconfortado.

Horas mais tarde, quando Eugênia Maria já começava a tirar a roupa na urgência de saborear o quanto antes cada segundo das duas horas semanais de alforria matrimonial que ela mesma lhe concedera, olhando já tremendo de excitação para o seu amante ainda vestido, ele sorriu daquele jeito sem-vergonha que a deixava ensandecida de desejo, e disse:

_Tá querendo dar para o Carlos Adolfo, né sua safada...

_Como é que você sabe? - Retrucou com surpresa e espanto, Eugênia Maria.

_Esqueceu que é comigo que ele se confessa?

7 comentários:

Lela disse...

apenas agradecendo a méia de 4 views diárias a partir do teu blog!

pontabranca.md disse...

adoro os nomes dos personagens!

Manuela Penzlien Medeiros disse...

Você me dá idéias ótimas de nomes para gatos e cachorros hahahahahahaha adoooooro! kkkkk

Don Mattos disse...

Porra, esse texto deve estar uma merda!

3 comentários, 1 para agradecer por ter aumentado o acesso no seu blogue, e 2 para comentar os nomes esdrúxulos.

Nada para a história, hahahaha!

Já sei, meu próximo post vai ser uma lista telefônica só com meus belos nomes compostos criativos.

Se vocês conhecessem a mórbida tradição que minha família tem de ficar pendurando nomes compostos na árvore genealógica, entenderiam o meu trauma! E lhes asseguro, os nomes fictícios dos meus textos são menos chocantes do que os nomes reais da minha família!

pontabranca.md disse...

ahahahaha
mattos, seu texto tá muito bom. pero,impossível passar batido pelos nomes.

jean mafra em minúsculas disse...

ah, david e os nomes esdrúxulos!

Daca disse...

é, a história é uma merda