segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Antes só


Afinidade nenhuma havia, disso sabiam os dois, mas ela era linda, charmosa como nenhuma outra mulher parecera a ele até então. Inteligente, senso de humor impecável, sensível, delicada, chamava atenção sem ter nisso um objetivo, cativava aos outros com a naturalidade com que se respira, e tudo isso era tão forte que ele a quis para si. Talvez não por ter sido tocado pelo dedo intrometido do amor, mas por que ela seria um troféu lindo para exibir em sua estante empoeirada.

Afinidade nenhuma havia, disso sabiam os dois, mas ele oferecia uma ruptura tão grande na vida que até então vivera, uma quebra de página naquela história que vinha numa inequívoca simetria, com cada peça no seu devido lugar, enredo sem vilões, sem dores, céu de brigadeiro, mar de cruzeiro, tudo meticulosamente organizado, em ordem, que entre garrafas de smirnoff ice e um lenço umedecido em lança-perfume, deixou-se convencer de que aquela seria uma aventura necessária.

Ele baixinho, ela não gostava de homens baixinhos.

Ele um tanto grosseiro, ela primava pela cortesia.

Ele sem a menor preocupação em disfarçar a violência da sua índole, ela tão sensível, tão delicada.

Mas deixou-se convencer de que aquela seria uma aventura necessária.

Tudo por que seu amor anterior, de tão cartesianamente adequado, dizia que aquela hora, não era a hora certa de terem um filho.

Ela queria um filho.

O outro, o baixinho grosseiro e violento, também queria um filho.

E para romper a previsibilidade do amor anterior, já desgastado, deixou-se envolver.

E assim os meses escorreram pelos vãos da vida de ambos, agora juntas. Alguma diversão, incontáveis desentendimentos, e a agressividade dele, que em determinadas circunstâncias até era capaz de oferecer algum prazer, na maior parte das vezes fazia-se de oleiro, transformando o barro do afeto num vaso de medo.

O amor não gosta disso, ele sabe que nas inúmeras cores das quais é composto, nenhuma delas têm o acinzentado do medo. Pode ter uma tarde nublada, chuvosa, mas apenas para que se veja filmes entre abraços embaixo da coberta, mas não o cinza sujo do medo. Mas foi essa tonalidade de cinza que estampou o papel de parede da casa edificada para a morada da aventura de ambos, que agora tentava fingir ser vida a dois.

A aventura virou beijo, o beijo virou sexo, o sexo virou cinza, o cinza virou medo, o medo fez um filho.


O menino nasceu tão lindo, que parecia ter sido um milagre da auto-fecundação. Tudo nele lembrava exclusivamente a beleza pura e delicada da qual ela era feita.

O filho tornara-se para ela a razão pela qual até então vivera. Ele era feito de um verde sutil, o verde da esperança, e dessa cor o amor tem muita. E embora fosse tão sutil o verde, tinha relevância suficiente para encobrir o cinza do medo que empesteava o ar que respiravam naquela relação danosa à ela.

Se ela era o troféu dele, o filho tornara-se a medalha. A prova indubitável de que ela era dele. Um bem do qual tinha a posse intransferível.

Por crer que para o bem da criança o ideal seria uma vida com pai e mãe juntos, ainda que a relação de ambos fosse tão doente, aceitou a condição de posse e submeteu-se ao desamor.

Em diversas circunstâncias cansou, estava esgotada de tamanho desrespeito, sabia que se não recebia carinho, pelo menos respeito merecia. Mas não o tinha.

Ela, que sempre fora tão segura e independente, passou a fazer vista grossa para as traições e toda sorte de baixezas que ele oferecia em troca da sua compreensão submissa.

Em uma ou duas oportunidades ela superou o medo das ameaças diárias que sofria, e desabafou com sua família que desta vez daria um basta, agora se separaria em definitivo. Mas a família, bastante religiosa e temente do castigo que ela poderia sofrer caso descumprisse o juramento feito diante do altar de deus, aconselhavam-na a deixar isso pra lá. A família que ela agora tinha constituído com aquele homem de caráter abalroado, valia o preço caro da frustração pessoal. Lembravam-na que Abraão, homem admirável, aceitou sacrificar o próprio filho para atender aos caprichos daquele deus egoísta que adoravam. Resignar-se à uma vida diminuta, sob ameaças constantes, para manter firme o juramento que fizera e manter erigida aquilo que os conceitos deturpados dos seus parentes acreditavam ser família, era sacrifício pouco, mediante o que fizera Abraão, homem admirável.

E, assim, voltou para a masmorra daquele casamento tirano, confortando seu infortúnio na beleza inigualável do sorriso amoroso de seu filho.

Um dia, no carnaval, se não me falha a memória, ele a deixou em casa com o pequeno e, vestido de mulher, saiu com seus amigos de valor igual ou menor que o dele, para esbaldarem-se num mar de indignidade promíscua.

A lua já mostrava-se cansada da sua labuta, e dava sinais de que preparava-se para finalizar seu turno e entregar o trabalho de vigia do mundo para o sol, e ele, o marido cinza, ainda não voltara para ter o privilégio de ver seu filho lindo dormindo, beijar-lhe a testa e desejar que seus sonhos fossem tão doces quanto suas mãozinhas encolhidas no berço.

Ela ficou sinceramente preocupada com o bem estar do marido cinza. Pegou o carro e foi buscá-lo entre as ruas, ver se algo de ruim havia lhe acontecido, se precisava de ajuda. E no trânsito arrastado das folias de fevereiro, ela o viu. Ele não percebeu que aquele era o carro dela, mas ela o viu. Por não perceber, ele agarrou-se com uma qualquer, empurrou-a contra o carro da esposa preocupada e, na frente do seu troféu, tentava a força o beijo de uma boca que não valia muito mais do que ele.

Ela saiu do carro e disse, Chega, vamos embora, teu filho te espera. Ele revoltou-se, quem ela pensava que era para lhe dar ordens. Mandou-a voltar para casa imediatamente, ela não mandava nele. Ele sim, mandava nela. Ela era o troféu, ele o atleta vencedor.

Ela foi.

Quando ele enfim chegou em casa, fedendo menos das orgias do que do odor da putrefação da sua conduta diária, deixou de ameaças e partiu para a agressão de fato, física.

Quem nunca passou, não sabe, mas esse tipo de agressão é superficial na carne, mas dilacerante na alma, faz sangrar o amor próprio.

Desta vez não houve consulta à família, apenas aquilo que sabia que seria melhor para o seu filho lindo. Pegou o menino nos braços e partiu.

Nunca mais voltou.

E depois das incertezas iniciais que aquela nova realidade apresentava a ela, percebeu que, por incrível que pareça, havia sim beleza no mundo. E nada mais ao seu redor lembrava o cinza frio do medo. As cores ainda eram discretas, mas eram ternas, frescas e apaziguadoras. Ofereciam uma paz tão plena que ela perguntava-se se alguma vez já havia sentido algo parecido.

Com seu filho junto de si, ela não sentia falta de alguém ao seu lado, apaixonar-se não era pré-requisito para sentir-se feliz.

Sabia que se um dia voltasse a querer a paixão e o amor, talvez até soubesse onde procurar, mas não por enquanto. Não por um bom tempo.

E assim, ela e seu filho, os dois apenas e ninguém mais, viveram felizes para sempre.

E ele?

O marido cinza?

Bem, ele que se foda!

2 comentários:

luiza disse...

que a minha irmã leia isso...
luiza

Irene disse...

Obrigada minha irmã linda! amo-te!