segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Volta pra mim?


Volta pra mim?

Agora?Já faz tanto tempo...

Eu sei, volta pra mim?

Chega a ser ridícula, essa sua proposta.

Eu sei, volta pra mim?

Tenha dó, eu não sou palhaço. Sofri como o capeta, caí na bebida, comecei a fumar, tudo por causa dessa dor de cotovelo incurável. Você fez gato e sapato de mim, sabia que eu era apaixonado, louco por você, faria qualquer coisa por você, e sabendo disso tudo fez de mim gato e sapato.

Eu sei, volta pra mim?

Eu me sinto quase ofendido com essa sua proposta. Fiquei traumatizado, sabia?

Te pago um psicólogo. Volta pra mim?

Não quero o seu dinheiro. Aliás, essa foi uma das coisas que mais me doeu. Você me traiu, eu te perdoei, traiu de novo, perdoei de novo. Você me fez acreditar que casaríamos! Comprei alianças, financiei um apartamento pra gente, não era grande e espaçoso como o dos seus pais, mas era bem charmoso. Me endividei por nossa causa, por sua causa, por acreditar que éramos uma causa que valia a pena, e não bastasse a humilhação por ter pendurado no meu pescoço o crachá de corno manso, você teve a coragem de me acusar de estar com você apenas por interesse. E pior, você nem era rica! Isso me magoou muito, sabia?

Imagino, mas acho que posso reparar. Volta pra mim?

Por que agora? Por que eu? Por que depois de tanto tempo?

Por que eu tive tempo bastante para experimentar vários outros homens, namorei, noivei e até casei com dois deles. Mas nenhum chegou perto de você.

Mas você, além de me acusar de estar com você só por interesse, riu de mim dizendo que eu era muito “rapidinho”.

É verdade, você é mesmo. Ou era, não sei, vá que nesse tempo em que estivemos longe você tenha aprimorado a sua técnica. Mas, mesmo rapidinho, em todo o resto você era melhor do que os outros.

Ah, legal, então quer dizer que eu volto para você por ter um bom papo, e você vai continuar tendo seus casinhos extra-conjugais...

Não pretendo. Já estou muito velha para isso. Nós dois estamos. Sei lá, talvez pode ser que um dia até venha a acontecer de eu ter um casinho ou outro, mas isso não significa, nem significará que eu vá te deixar de novo. Volta pra mim?

Puta merda, você é muito cara de pau!

Eu sei, se não fosse nós nunca teríamos ficado juntos. Você era muito cagão, tinha medo de chegar nas mulheres.

Não satisfeita em me humilhar no passado, faz questão de ainda ficar me ridicularizando agora.

Não se sinta ridicularizado, eu achava charmosinho o seu jeito tímido, o seu medo do sexo feminino.

Ei, pode ir parando com isso! Eu nunca tive medo de mulheres. Mas se coloque no meu lugar, você sempre foi linda, perfeita, sarada, e eu um cdfzinho de merda, que nunca despertou o interesse nem das feias. Quando você veio com aquele papinho que estava interessada em mim, eu tive uma sensação fortíssima de que você devia ter feito uma aposta com alguém, como nesses filmes americanos para adolescentes, em que o bonitão aposta com os amigos que vai pegar a menina mais feia. No nosso caso, você era o bonitão, eu a menina mais feia.

Não, não. Não foi nada disso. Teria até sido divertido, caso fosse isso mesmo. Mas não, eu realmente achei a sua timidez bem bonitinha e bastante desafiadora, não sei se era a bebida, eu bebia demais naquelas festinhas da faculdade, mas eu realmente fiquei interessada em você.

Legal, ficou comigo por causa da bebida.

Não, não por causa dela. Dela também, mas não só.

Quando terminamos, eu com alianças no bolso, um financiamento de um apartamento de dois quartos nas costas, dois belos pares de chifres na testa, você ainda teve coragem de sair falando para todo mundo que não teria como passar o resto da sua vida com um cara que morava com a avó. EU devia te esculachar para os outros, não o contrário! EU era a vítima!

Você ainda mora com ela?

Não, ela morreu... Já faz quase vinte anos.

Puxa, o tempo voa! Sinto muito...

Olha, entendo que estejas meio carente, e talvez pelo o que vivemos eu pareça para você a segurança que os teus outros relacionamentos não te ofereceram, mas o que tínhamos para viver nós já vivemos.

Não é carência.

Crise de meia idade, sei lá. Admito que até faz bem para meu ego, essa sua recaída, mas eu sofri demais. Sério mesmo, não quero me fazer de vítima, mas você não tem ideia do que eu passei. Minha bolsa de estudo em Oxford não era uma oportunidade de ouro, era uma fuga. Eu consegui um dinheirinho legal vendendo o apartamento, vantagens de se comprar na planta, a valorização é grande, e peguei o dinheiro para subornar o cara que aprovava os projetos de pesquisa para o exterior. O meu projeto era uma merda. Paguei para fazerem o projeto, eu não tinha a menor condição de escrever um projeto decente, que fosse merecedor de uma bolsa de estudos no exterior, mas eu precisava dar um jeito de ficar longe de você. Acreditei que com um oceano de distância conseguiria superar.

Mas pelo visto você ainda não superou.

Estou calejado, digamos assim. Determinadas dores não saram nunca, mas a gente aprende a viver com elas. Como a enxaqueca. Você ainda tem aquelas crises?

Nem me fale...

Então, mas você sobrevive a elas. É mais ou menos esse o meu sentimento em relação a você.

Volta pra mim?

Não.

Por favor!

Não.

Eu posso te fazer muito feliz.

Não!

Sério, tenho certeza que eu posso apagar da tua memória todas as amarguras que te fiz passar.

Não! Não! Não! Mil vezes não! Não quero ouvir mais nada!

Se você ouvir o que eu tenho pra te dizer, como posso te fazer feliz, tenho certeza que você vai mudar de ideia.

Escute aqui, por sua causa, nunca fui merda nenhuma na vida. Nem com um mestrado na Inglaterra consegui mais do que um sub-emprego! Já passei dos quarenta e ando de carro popular e moro de aluguel. Nunca mais tive coragem de visitar apartamentos em construção para comprar algo meu. Mesmo estando aprisionado na fedorenta classe-média, casa própria deixou de ser um sonho.

Volta pra mim?

NÃO! Nem por um milhão de reais, nada nesse mundo vai pagar, apagar ou mesmo disfarçar o meu sofrimento.

Trinta e sete.

O quê?

Milhões. Trinta e sete milhões. Eu ganhei na mega-sena. Volta pra mim?

É sério?

Sim, é sério.

Tá bom, eu volto.

6 comentários:

Daca disse...

ah, o amor sincero e imparcial é lindo...

Nayana disse...

"Determinadas dores não saram nunca, mas a gente aprende a viver com elas. Como a enxaqueca."

e eu odeio entender um bom pouco de cada.

julie disse...

tu es um tolo, david.
mas eu gosto daqui.

Manuela Penzlien Medeiros disse...

ganhei na mega-sena. casa comigo? hahaha leva o vinho que eu levo o buquet :*
hahaha bjos querido.

Anônimo disse...

Oi Don,

Gosto de ficar olhando seu blog e percebo quanta originalidade e criatividade em que escreves seus textos. Sua inspiração para escreve-los vem atráves de relatos de amigos, do seu cotidiano ou pura imaginação? Fiquei curiosa para saber.


Carol.

Don Mattos disse...

Olá Carol, fico feliz que gostes dos meus textos! E me senti um pop star com a tua pergunta, é praticamente a minha primeira entrevista, hehe.

Bom, primeiramente, os textos não são auto-biográficos nem contam histórias de amigos. Mas claro que vez ou outra algo que acontece ao meu redor serve de gatilho para a história.

Vivo atrás de gatilhos!

Um amigo diz que saiu para tomar um capuccino com uma menina, e isso vira o gatilho para o resto, aí deixo a ideia viajar. Uso o capuccino como cenário, como start, o resto vai por conta própria.

Normalmente, quando começo a escrever não sei o final que a história vai ter, ela mesma que acaba se definido enquanto digito.

Fico pensando em possíveis histórias vinte e quatro horas por dia, tudo o que eu vejo fico imaginando como poderia ser descrito num texto, e como aquilo serviria de cenário para alguma história.

Ultimamente, meu ritual básico para escrever tem sido trilhas sonoras aleatórias. 90% dos meus textos são escritos a partir de alguma música. Pego um DVD ou um disco, deito no sofá, e fico ouvindo (ou vendo) faixa por faixa, até que alguma das músicas apresente um clima que combine com uma história, quando a música pega na veia, fico ouvindo-a um milhão de vezes enquanto desenvolvo o enredo. Levo o computador para o sofá, apoio ele sobre dois travesseiros, e passo duas ou três horas escrevendo e ouvindo a mesma música.

Meus vizinhos devem me detestar nestes momentos, e detestar mais ainda as músicas que fico repetindo.

Preferencialmente, escrevo tomando vinho, até por isso normalmente o vinho aparece de alguma maneira nas histórias. Quando aparece até a uva (carmenere, shiraz, merlot...), é por que estava tomando um vinho daquela uva no momento em que escrevia a história.

Mas isso não é uma regra. Tem funcionado assim, mas nem sempre foi assim, talvez amanhã mude.

Mas que fique claro, como também em boa parte dos textos alguém morre, não significa que eu mate alguém para me inspirar, hehe. Mas isso daria um bom enredo para uma história de serial killer!

Estou aprendendo a escrever, e tenho certeza que nunca deixarei de estar aprendendo. Não entenda esta frase como uma possível falsa modéstia, de fato me considero um aprendiz em constante desenvolvimento, mas nesse meu início de aprendizado, para finalizar os textos sempre tento buscar alguma surpresa/revelação ou ruptura que tire a história do conforto esperado para o fim, e na maior parte das vezes, não há ruptura mais convincente do que a morte. Mas isso é um momento, o momento do aprendizado da escrita, digamos assim.

Estou tentando aprender a escrever sem matar ninguém, mas até então é um cacoete, um cacoete que estou tentando me livrar para não me tornar repetitivo e/ou cansativo.

Antes postava um texto por dia, mas como meus textos são longos demais para o padrão internet, passei a postá-los três vezes por semana, segunda, quarta e sexta.

Não sei se saciou a sua dúvida, esse tipo de resposta às vezes é meio frustrante, pois quando lemos algo, às vezes imaginamos grandes inspirações por trás das histórias, e pode ser meio broxante imaginar que as histórias aconteçam de uma maneira meio boba como ficar ouvindo uma mesma música um milhão de vezes.

No mais, espero que continues aparecendo por aqui para leres as várias novas histórias que pretendo escrever. Torço para que as ideias não me faltem e, mais do que isso, que elas agradem, incomodem ou afetem de alguma maneira aqueles que as lerem!

Don.