segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Narciso


Eu queria tanto encontrar uma pessoa como eu.

Pare de chorar, por favor. Isso te deprime.

Não, você entendeu errado. Você sempre entende tudo errado. Burra!

Isso não ME deprime, isso TE deprime.

Não acho que exista algo de tristeza suficientemente relevante a ponto de me deprimir. Mas deve ser duro para você, para todos, na verdade, terem que se relacionar com esse mundo que expõe o tempo inteiro as insuficiências recíprocas das quais vocês são feitos.

Eu queria tanto encontrar uma pessoa como eu.

Mas, como dizem, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Um raio da minha qualidade, então...

Vou tentar te explicar, embora já saiba de antemão que você não terá capacidade para entender.

Lembro perfeitamente, lembro como se fosse hoje, o dia em que minha mãe, mulher imperfeita cujo provável único acerto na vida tenha sido me parir, me explicou a história do meu nome, Narciso. Justa a auto-veneração que o Narciso histórico tinha por si, mas com um desfecho indigno da sua grandeza. Mas com certeza, com a minha certeza – que convenhamos, é a única certa – só teve aquele desfecho, pois a história foi escrita por um dos seus, um ser-humaninho qualquer que vai nascer, crescer, morrer e, ainda que componha uma música bonita, descubra a cura para o câncer ou aids, desvende os mistérios do DNA, tenha um Nobel pendurado no pescoço, vá para o Big Brother, morra crucificado numa cruz, pise em marte, pise na puta que lhe pariu, ainda assim, continuará a ser um ser-humaninho qualquer.

Eu não, eu estou acima disso. Mas não vou pedir para você entender, sua compreensão não alcança tão longe.

Foi no meu aniversário de quatro anos, quando ela me contou o significado do meu nome, Narciso, que eu tive a mais plena consciência de que era o nome mais apropriado para ser batizado. Tudo bem, dois acertos para a conta da minha mãe, me parir e escolher meu nome. Esses dois feitos já são motivos mais do que suficientes para que ela mereça apodrecer sua alma no reino dos céus, com anjinhos e arcanjos tocando harpa para sempre nos seus ouvidos, uma eternidade atrás da outra.

Ela me pariu, ela merece.

Não digo que ela tenha me feito, obviamente não somos feitos do mesmo tipo de carne, de inteligência, de alma. Sou melhor do que ela, ela não tem culpa disso, é apenas um fato irrefutável. Mas ela me pariu, que tenha a porra do reino dos céus que sempre sonhou.

Quando me catequizaram e me sabatinaram com a tediosa história cristã, por um minuto pensei se não seria eu o novo Cristo, o segundo filho direto da linhagem divina. Aquele que veio ao mundo para redimir as debilidades terrenas com a minha supremacia inequívoca. Mas logo percebi que não era o novo Cristo.

Eu não seria idiota a ponto de me deixar matar por uma espécie que não vale nada. E também não nasci para ser o segundo. Algumas pessoas nascem para serem vices, segundos colocados.

Eu não.

Sou o primeiro e provavelmente o último. Sou único.

Pensei então que talvez fosse o próprio Deus encarnado, mas também logo vi que não. Fosse eu o criador, teria criado coisa bem melhor do que esse mundinho desconexo, cheio de falhas no sistema, erupções, maremotos, terremotos, nevascas, dilúvios, isso tudo são imperfeições no sistema. Eu teria acertado de primeira. E caso não acertasse, o que não aconteceria, não iria colocar no mercado algo tão mal acabado.
Não é a toa que os homens são a Sua imagem e semelhança. Imperfeitos, todos eles, Deus e os homens. Feitos da mais abobalhada imperfeição, o que não se aplica a mim.

E você sabe disso, se não soubesse, não estaria chorando tanto agora.

Isso não é um pé na bunda. Embora sua bunda seja bonita e bem gostosinha, não enfiaria o meu pé nela. Ele merece coisa melhor.

Você sabe, eu sou muito bom. Na cama, então...

Não, não, você está errada de novo.

Eu nunca broxei. Você que não estava a minha altura, não soube me apetecer.

Pensei até em te ensinar, te dar uma dicas de como me saciar, mas não quis me dar o trabalho, você nunca foi merecedora de tanta atenção. E você é burra, talvez não entendesse minhas orientações, por mais claras que fossem. Gostosinha, mas burra como uma britadeira.

Eu lhe dei a oportunidade de me provar bastante intimamente, mas você insistiu em não levar o sexo oral até o fim. Como você é burra, eu oferecendo o meu sabor, o provável melhor sabor que você experimentaria em toda a sua existência, e você recusou. Como você é burra...

Quisera eu ter elasticidade suficiente para eu mesmo me deliciar com meu sabor. Mas, mesmo sendo tão acima deste mundinho de merda, não tenho essa elasticidade toda. Seria bom por dois motivos básicos, poderia me provar no momento exato do meu jorro, e também por que ninguém melhor do que eu saberia fazer tão bem o que você faz tão mais ou menos.

Não, eu não sou bicha. Homossexuais são narcisistas que não deram certo. Adorariam se comer, mas como não podem, saem comendo pessoas do mesmo sexo para tentar chegar perto do que seria a auto-felação. Narcisitas que não deram certo, e se não deram certo, não servem para Narciso.

Eu sirvo.

Não, eu não gostaria de me comer. Come-se miojo, você e seus pares alimentam-se de miojo, fast-foods e lasanhas congeladas. Eu sou prato sofisticado, não sirvo para ser comido, eu devo ser saboreado. Seu paladar não alcançaria as nuances dos meus tantos sabores. Sou um desses pratos que para se ter todas as delícias de cada um dos sabores devidamente realçados, seria necessário o vinho exato para harmonizar com meu gosto raro. Mas não existe um vinho tão bom, a ponto de harmonizar com meu sabor fino. Vinho nenhum me alcançaria. Seu paladar nunca me alcançaria.

Entende por que você deve ir agora? E se você tiver alguma dignidade, coisa que eu não acredito, não me procure mais, não me ligue, esqueça meu email, não fique na esquina da minha casa me espionando para saber com quem eu estarei saindo, enfim, reserve-se à sua insignificância.

Você não está a minha altura.

Ninguém está.

Eu queria tanto encontrar uma pessoa como eu.

Agora que já te expliquei tudo, ou pelo menos o que me interessou te explicar, vista a sua roupa e vá embora.

E não se demore!

O que é isso?

Desde quando você anda armada?

Você vai me matar?

AI...

Sua burra, o coração é do lado esquerdo, se vai me matar, faça pelo menos isso direito.

Veja só...

Veja como é lindo o meu sangue...

Nunca tinha visto um vermelho tão intenso...

Até minha voz...

Ficando fraca...

É linda...

Obrigado...

Minha mãe acertou duas vezes...

Você, pelo menos uma...

Não vou mais precisar viver com pessoas iguais a você...

Quem sabe agora encontre uma pessoa como eu...

Mas eu duvido...

Queria tanto uma pessoa...

Como eu...

Duvido...

Eu...

...

2 comentários:

Lela disse...

senti uma vibe meio Caco Antibes!

Manuela Penzlien Medeiros disse...

Um perfeito exemplo de um homem do signo de Leão nas aparências. :)

Adorei o texto!