quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Valsa triste


Pela falta de um par que a tirasse para dançar, posicionou no chão sujo da sala três velas vermelhas, distanciadas assimetricamente, para que o sopro fraco e sem fôlego do vento que vinha da rua, entrando pela fresta da janela entreaberta, fizesse as chamas bailarem descoordenadas ao som da valsa triste que colocava para tocar cada vez que tinha vontade de sentir saudade dele.

Na mão esquerda girava a bela taça de cristal vazia, ávida por ceder seu colo a algum bom vinho, como se vinho nela houvesse, mas não havia. Nem haveria.

Levava a taça ao nariz fino, respirava fundo para tentar extrair do cristal empoeirado pelo desuso, algum resquício do bouquet de meses atrás. Talvez uma sobrinha do aroma daquele pinot noir que por último estivera ali. Mas a taça, egoísta que só ela, consumira todo o aroma sozinha, não deixando para a bailarina solitária um restinho que fosse do perfume daquelas notas precisas que só os bons franceses possuem.

Rodopiava sozinha entre as velas vermelhas, lembrando das mãos ásperas dele invadindo seu vestido com uma delicada violência consensual, tomando-lhe a parte interna das coxas, seus dedos deslizando levemente sobre sua intimidade ainda vestida, sentindo na memória do seu corpo o calor intenso que a umedecia até a alma, e na boca o sabor ocre do fel da raiva de igual intensidade, que sentia daquela mulher que a privara dele.

Embriagada da valsa triste, alimentava sua raiva com a dedicação do cigarro que alimenta o câncer, lamentando a tirania do destino que fizera da outra a esposa dele, embora soubesse-se ser sua única e verdadeira mulher. Até por que, como bem se sabe, não há nos registros disto que se chama vida, a existência de almas trigêmeas. Assim sendo, fosse Deus realmente justo, o mundo deveria servir apenas como cenário para a consumação daquele amor que ela sentia por ele. Sem a outra, a esposa, apenas ela e ele.

Remoia-se de raiva de si mesma cada vez que lembrava que chegara até a tratar a outra, a esposa, com algum afeto. Talvez, desde sempre, tenha sido apenas alguma espécie de pena, de culpa, mas na época parecia-lhe afeto. Até amor, a certa altura, pareceu ser o nome adequado do sentimento que sentia pela outra, a esposa. Mas, desde a primeira vez em que ele a teve, que a outra, a esposa, tornou-se desprezível, indigesta, intragável. Apenas um obstáculo entre ela e a plenitude que a felicidade lhe acenava de longe, mas a outra, a esposa, impedia de aproximar-se.

Durante meses, poucos, é verdade, fora feliz no segredo de oferecer a ele o amor que ninguém poderia desconfiar. A cumplicidade do sigilo era parte importante da chama que os consumia, cada vez que a outra, a esposa, ausentava-se. Mas a outra, a esposa, no ardil da inveja a privara dele.

Se tivesse a oportunidade, faria da morte da outra, a esposa, uma experiência inesquecivelmente dolorosa, lenta, morosa. Mas a clausura impossibilitava o deleite que imaginava que teria em arrancar do corpo da outra, a esposa, a vida que julgava não merecer mais carregar, depois de tirar-lhe para sempre o seu homem.

Ela não chegou a contar-lhe, o tempo não foi suficiente, mas o êxtase que ele sentiu naquela noite pela sofreguidão com que ela se entregava inteira a qualquer dos seus desejos, era uma celebração ainda não compartilhada, pois ao fim da noite ela lhe contaria que, enfim, ele teria o filho homem que sempre sonhara, e que a outra, a esposa, não fora capaz de dar-lhe.

Sentindo a força viril do seu homem puxando-lhe os cabelos, lambendo-lhe o pescoço enquanto apertava seus seios contra a porta do guarda-roupas, ela chorou de felicidade por sentir-se detentora da rara sorte de poder ter dentro de si, aquele que seria para sempre seu único amor.

Mas quando seus corpos fundiam-se urgentes pela proximidade do ápice, a outra, a esposa, surpreendeu-lhes horrorizada.

Em pânico pelo que via, a outra, a esposa, pegou a tesoura que dormia tranqüila sobre a penteadeira, e projetou-se sobre as costas do seu marido, perfurando-lhe incontáveis vezes até perder as forças.

O marido desabou ensangüentado, e a outra, a esposa, pegou um lençol para abraçar a filha que chorava nua, vendo seu pai caído com os olhos abertos, mas opacos, já pela ausência da vida.

Se naquele dia seu choro fora de prazer, agora, enquanto rodopiava sozinha ao som da valsa triste, era de raiva por não ter tido a agilidade de pensamento e atitude, para pegar a mesma tesoura e projetar-se sobre a mãe desgraçada, que lhe furtou a dádiva de ter num mesmo ser o amor de pai e homem.

Lamentou a chegada da polícia que, na delação do flagrante, encarcerou de imediato a mãe assassina.

Para ela, sobrou apenas a lembrança do aroma daquele vinho que seu pai tanto gostava, mas que não tinha coragem de beber sem a sua presença, e a esperança de trazer no ventre um outro homem que, quem sabe quando crescido, mostrasse-se a reencarnação do avô e, assim, um dia poder novamente entregar-se a ele.

4 comentários:

Shuzy disse...

Pegou pesado nesse...

MRC disse...

Sò uma palavra:
Intensidade.

Otimo texto!

Beijos

Letícia Palmeira disse...

Pois sim.

Também gosto de dizer "Pois não?". Ontem eu fiquei por aqui azucrinando teus textos com minhas leituras no meio da madruga. É a melhor hora para ler. O mundo não existe às 3 da manhã.

E também ouço música quando escrevo. Ou isso, ou nada sai.

Vou te escrever por e-mail.

E preciso dizer que seus textos são muito bons? Creio que não. Você sabe disso.

Bjo procê.

Si disse...

Cara ... vc é chato pra caramba mas teus textos são ótimos!
Não te suportaria por mais de 5 minutos num café entre bate papos e mordidas num pão de queijo quentinho!
Mas um livro seu eu leria! Ahhh, leria sim e com o mesmo prazer com que tomo um café com pão de queijo! Bjs queridooooo!