segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Severina Xique-xique


Quando nova, coitadinha, era tão pobrezinha, magrinha, feinha que mesmo naquela cidade de mulheres subnutridas e pele cor de sujeira, não havia quem quisesse lhe namorar.

Genival, seu pai, dizia, Severina, minha filha, só existem dois tipos de mulheres no mundo, as bonitas, jeitosas, que conseguem um bom casamento e estão com a vida feita, ou as inteligentes, que estudam, arranjam trabalho e ficam independentes.

Severina ouvia atenta aos ensinamentos de Genival, que completava sua lição de vida dizendo, Estuda, minha filha, estuda bastante.

Contudo, Severina sonhava com um marido amoroso que lhe amparasse e desse a ela uma vida destas de folhetim, casamento na igreja, casinha com cercado, cachorro, gato, papagaio, uma penca de crianças barrigudas correndo pra lá e pra cá, e ela se multiplicando em mil para dar conta de cuidar das crias enquanto prepararia a janta do seu marido que estaria no serviço.

Mas não havia quem quisesse lhe namorar.

Em alguns dias pensava até em virar freira, pois se era para morrer virgem, que pelo menos fosse por alguma causa nobre.

Também pensava em virar freira, pois corria na cidade o boato de que não era apenas para estudar o Evangelho que os seminaristas visitavam o convento.

Não raro, algumas das freirinhas do convento sumiam por meses, e voltavam depois com um filho no colo.

Virar mãe solteira lhe parecia menos penoso do que morrer virgem.

Para piorar ainda mais o destino que se desenhava diante do avançar dos seus anos, Severina apaixonou-se por Pedro Caroço, um pinguço que não valia seu peso em cachaça.

Na verdade não sabia exatamente se aquilo que sentia era paixão, mas ficou eufórica quando ele a convidou para dançar um rala-coxa dos quentes num show da banda Calcinha Preta, que teve na festa de aniversário da cidade.

Era uma quentura estranha que ela sentia cada vez que ele apertava a cintura dela contra a sua, fazendo roçar as pernas entre os rodopios do arrasta pé. Nem o bafo de cachaça e o cheiro forte e azedo que a falta de hábito de usar desodorante que Pedro Caroço tinha, arrefecia aquela quentura boa que só fazia aumentar.

Pedro Caroço, percebendo que a pequena Severina parecia estar gostando daquelas encoxadas que as outras meninas evitavam, tratou logo de puxá-la pelo braço para um canto escuro atrás das caixas de som e, sem a preocupação de ser delicado, romântico ou algo que o valha, enfiou a mão por baixo da saia de Severina e arrancou-lhe a calcinha com violência. Virou-a de costas para si, tapou-lhe a boca com uma das mãos, com a outra ergueu a saia na altura da cintura, abaixou as suas calças sujas e arremeteu-lhe com força de uma só vez. E depois outra, e outra, e de novo, e com pressa, e com vontade, indo e voltando, segurando o grito de Severina que comprimia os seus olhos enquanto apoiava-se com as mãos na caixa de som, sentindo aquele misto de dor e uma outra sensação desconhecida vindo por trás.

Quando Pedro Caroço terminou, ela virou-se para ele e viu seu sorriso careado cheio de saciedade, já esperando o choro convulsivo da menina deflorada. Um tapa, talvez.

Severina olhou para ele com os olhos marejados, e disse, Eu te amo!

Pedro Caroço ficou assustado, Tá maluca, menina? Não é pra me amar não, endoidou, foi?

Namora comigo?

Que é isso, menina? Quem bebe sou eu! Eu não presto, vai procurar coisinha melhor que não vai ser difícil de arranjar.

Eu sei que você não presta. Você não vale nada, mas eu gosto de você, disse Severina, inspirada na música que vinha de cima do palco.

Eu sou só um pobre bêbado, e pelo que sei, rica você também não é. Se fosse, quem sabe até eu namorasse, mas prefiro ser pobre sozinho do que acompanhado.

E foi embora deixando Severina ali no canto escuro, calcinha arriada e aquela viscosidade leitosa misturada com o vermelho da sua pureza rompida escorrendo-lhe pelas coxas magras.

Naquela mesma semana Severina mudou-se para a capital. Tratou de seguir os conselhos do seu pai e estudou. Estudou muito, fez até um curso de empreendedorismo no Sebrae da região.

Depois de dois anos longe, voltou a sua cidade natal para cuidar do pai que adoecera. Alguns dias depois, morreu Genival. Cirrose. Sua freqüência ao boteco era muito parecida com a de Pedro Caroço, mas o fígado não era tão resistente quanto.

Para surpresa de Severina, seu pai deixara em seu nome uma pequena herança. Uma quantia de dinheiro que, se não era muita, era o suficiente para usar os conhecimentos que o cursinho do Sebrae lhe dera, e abrir o seu próprio negócio.

Em poucas semanas Severina abriu na casa de seu falecido pai a empresa. Na frente do portão uma placa pintada a mão dava nome ao estabelecimento: “Boutik Xique”.

O negócio prosperava, e ela passou a ser chamada na cidade de Severina Xique-xique.

Foi por esses dias que Pedro Caroço apareceu na sua loja como quem não quer nada, dizendo que já não era o mesmo de tempos atrás e que estava procurando serviço, na esperança que Severina lhe oferecesse algo.

Severina sentiu de novo aquela quentura de anos atrás. Suas funcionárias, duas meninas filhas do vizinho, alertaram-na para que não caísse na conversa do pinguço, pois ele só estava de olho é na boutique dela.

Mas os anos na cidade fizeram dela mulher esperta, apesar da quentura que não diminuía.

Pediu que ele voltasse as seis, depois do expediente, que ela pensaria em algo para ele.

No fim do dia, Pedro Caroço apareceu de banho tomado, cabelo penteado e barba feita. Mas o bafo delatava que a cachaça continuava a ser sua companheira mais fiel.

Severina pediu que ele entrasse no cômodo da casa que agora lhe servia de escritório, e fechasse a porta. Ele fez o que ela mandou, e sentou-se na cadeira em frente da mesa da jovem empresária. Severina levantou-se, caminhou até a porta e passou a chave. Pedro Caroço olhou para ela com espanto.

Levanta, ela disse.

Ele obedeceu assustado.

Empurrou-o contra a parede e, sentindo aquele cheiro forte de cachaça vagabunda, sentiu as pernas tremerem e a quentura de um vulcão em lavas entre as suas pernas. Beijou a boca daquele bêbado disfarçado de homem direito, enfiando a mão por dentro das calças de Pedro Caroço. Com os olhos arregalados, assustados, ele sentia a língua dela agitar-se dentro da sua boca.

Severina afastou-se, virou de costas para Pedro Caroço. Ergueu sua saia mostrando que já estava sem calcinha, apoiou as mãos sobre a mesa do seu escritório caseiro e disse, Anda, vem!

Ele titubeou, Mas Severina, não é assim, eu só vim aqui atrás de serviço.

Então, disse ela, se você quer trabalho, vem e faz o serviço direito.

Ele foi.

Por estar um tanto acuado, não teve o mesmo desempenho da primeira vez, mas foi o suficiente para satisfazer Severina.

Terminado o trabalho, ele sentou-se na cadeira com as calças arriadas.

Fora daqui! Disse Severina.

O quê? Retrucou Pedro Caroço sem entender nada.

Anda, vagabundo, fora daqui agora.

Mas Severina, e o serviço que você me prometeu?

Você já fez o serviço, agora fora daqui.

Que é isso, Severina? Eu tô precisando de trabalho de verdade.

Toma.

Que é isso? Trinta reais?

Por esse negócio meia bomba que você me ofereceu, tá mais do que bom.

Ei, peralá, o que você tá pensando que eu sou?

Deixa de frescura, ô vagabundo. Sei que você só quer dinheiro pra cachaça, você não vale nada! Mas faz assim, volte amanhã mais bem disposto, que talvez eu melhore o pagamento.

E assim os dias passaram rápido, com a visita religiosa de Pedro Caroço após o expediente.

Um dia, Pedro Caroço disse meio sem jeito, Por que a gente não namora de verdade? A gente podia namorar, casar, ter filhos.

Eu? Namorar com você? Casar com você? Filhos com você? De jeito nenhum, você não vale nada!

Não valho nada, mas você gosta de mim.

Hahaha, não, eu não gosto de você.

Então por que você faz isso?

Por que você não vale nada, mas eu gosto de comer.

Na manhã seguinte, Pedro Caroço procurou um advogado e acionou Severina judicialmente, processando-a por assédio sexual.

O juíz estipulou uma grana preta como indenização. Para poder pagar, Severina teve que vender tudo o que tinha, inclusive a Boutik Xique. Foi a falência e, mais uma vez, viu-se pobre, pobrezinha.

Pedro Caroço torrou metade do dinheiro da indenização na cachaça. A outra metade ficou com o advogado malandro, que passou a perna no seu cliente na cobrança dos honorários.

Severina entrou em depressão.

Apesar de estar se divertindo com aquela relação de poder que passou a exercer sobre Pedro Caroço, ela começava a considerar seriamente a possibilidade de assumir um compromisso com o velho cachaceiro mas, no excesso de confiança, terminou na falência.

Ele demonstrava estar realmente apaixonado, parecia que o seu interesse era de fato casar com Severina, que nunca entendeu o por que daquela atitude.

Mas as filhas do vizinho avisaram Severina. Ela é que não quis escutar.

Desde o início, ele só estava de olho é na boutique dela.

11 comentários:

Shuzy disse...

Juro... Me deu um embrulho no estômago. Quase desisti na metade, mas o final não foi tão nojento... Ufa!
hasuhaushuahsa

Nayana. disse...

detecto uma ressurreição daquele projeto de 2007/8?

Don Mattos disse...

Olha só, quem é viva sempre aparece!

Bom te ver por aqui, Nayana!

Não, minha querida, não se trata exatamente de uma ressurreição daquele projeto.

Até por que a intenção dele era um livro de contos inspirados em músicas, mas que a história não fosse explícita.

Esse daqui é só falta do que escrever mesmo, admito que não achei o texto grande coisa, mas não queria ficar muito tempo sem publicar algo.

Mas ainda trago aquela ideia de volta. Um dia.

Contudo, porém, entretanto e todavia, de certo modo quase todos os meus textos partem de alguma música. Meu processo de criação é quase um ritual, hahaha, precisa de música, pouca luz, em outras épocas vinho (agora estou num período de abstinência forçada) e deslilgamento do mundo por umas três, quatro horas. Como eu escrevo ouvindo música, normalmente procuro alguma música que tenha um clima próprio, e tento trazer aquele clima para o texto. Não a história da música, mas o clima que ela tem, não sei se me entendes. É como se os textos tivessem trilha sonora.

Aliás, esses dias lembrei de ti, queria ouvir algo diferente do habitual, para ver se trazia para os textos um clima diferente, e peguei na Videoteca o DVD Acústico 2 do Nenhum de Nós. Jesus, como é ruinzinho, hein?!

Tu bem que podias ser tiete de coisinha melhor, como o Genival Lacerda, por exemplo.

Beijo, minha querida, apareça mais vezes!

Don Mattos disse...

Ah, esse texto aqui foi escrito ouvindo "O Bailão do Ruivo", último do Nando Reis, repetindo incansavelmente as faixas 9 e 10 do DVD.

A 9 é exatamente "Severina Xique-xiquei", a 10 é "Você não vale nada mas eu gosto de você".

A Noiva Cadáver disse...

Gostei da prte "Severina apaixonou-se por Pedro Caroço, um pinguço que não valia seu peso em cachaça."

Casa de Mariah disse...

Meus processos (nem tão criativos quantos os seus) também envolvem vinho. Já escrevi alguma coisa sobre isso. Se fosse escritora, o vinho me inspiraria, como não sou, considero pura irresponsabilidade. Pois, como alguém já disse: "in vino veritas".
Comecei o texto achando que acharia no meio dela mais uma Macabéa...mas qual foi minha surpresa, graçasadeus!
Adorei isso aqui.

Don Mattos disse...

Cara Mariah, de Macabéa já basta o cotidiano de quase todos nós, ainda que nossas mães não sejam Clarices.

Seja bem-vinda, espero que voltes mais vezes, mesmo que tenhas chegado até aqui por acaso.

Casa de Mariah disse...

Apesar da dica não ter sido pra mim, concordo quanto a "Amor nos tempos do cólera".

Casa de Mariah disse...

Não disse que cheguei por acaso.

Bruna Rafaella disse...

Oi Don, estou tentando fazer um comentario sobre seu texto desde o dia da postagem, mais como nao tenho computador e aqui no meu trabalho está uma correira, então nunca dá tempo pra nada, nem pra comer!!
Enfim, esse texto da Severina foi muito interessante, ela é muito safada hein, e essa foto que vc colocou é nojenta, credo!!
Não que eu seja curiosa, mais li o que você comentou que só consegue
escrever ouvindo música, eu também penso assim, sua vida então é uma trilha sonora né?
Deixo aqui novamente meu elogio mesmo não sendo lá grandes coisas seu blogue foi um dos melhores que já li, viajooo!!

Beijão

Don Mattos disse...

Olá Bruna Rafaella, já estava sentindo falta do teu comentário, achei até que não tinhas gostado deste texto,hehehe.

A minha relação com a música talvez seja pelo fato de antes de enfiar na cabeça que seria escritor, tentei ser músico, mas me aposentei por invalidez desta empreitada sonora. Tenho uma ligação muito forte com música, gosto muito, tenho muitos amigos músicos, alguns geniais, outros nem tanto, mas vivo cercado deles.

Quando comecei a escrever com mais periodicidade, precisava de silêncio absoluto, o meu romance foi escrito quase que enclausurado, sem barulho, sozinho no quarto, até o blecaute da janela eu fechava, só para ficar sozinho com meu texto. Mas foi do início deste ano pra cá que me habituei a escrever com música. Antes atrapalhava minha concentração, agora ajuda a criar o clima que eu imagino as histórias. Mas no fim das contas fica uma trilha sonora só pra mim mesmo, pois não faço nenhuma referência direta das músicas que estava ouvindo nos textos, salvo algumas exceções como "Oh, Anna Julia", "Anos nublados", em que o texto inteiro é uma espécie de desconstrução da letra de "Anos Dourados", de Tom Jobim e Chico Buarque, e "Carmenere", que ao longo do texto eu cito a música "Dindi", também do Tom, que era o que eu estava ouvindo quando escrevi. Talvez tenha mais uma ou outra que agora eu não esteja lembrando, mas acho que são só esses aí mesmo. No mais, acredito que o clima do texto para quem está lendo, muitas vezes deva passar longo do clima que eu imaginei quando escrevi, o que não é um problema, pois o texto, como dizem diversos escritores por aí, pertence a quem lê, não a quem escreve.

Até a próxima!