domingo, 6 de junho de 2010

Anos nublados


Parece que dizes: “Te amo, Maria”.

Não, não parece.

Não me pareces ser do tipo que amaria uma simples Maria, assim como eu.

Uma Maria Eduarda, Maria Fernanda, Maria Clara, talvez. Uma simples Maria simples, acho que não. Te dás o direito de optar pelos nomes compostos, pobre de mim.

Na fotografia é com ela que estás feliz. Não comigo.

Te ligo afobada, mas desligo antes mesmo que o primeiro toque interrompa o vinho que deves estar abrindo para tomar com ela. Não me dou tempo nem direito sequer para me confessar ao gravador.

Não sei se tomas vinho, mas és sempre tão nobre que não te imagino bebendo outra coisa. Tu só deves aceitar boas safras. Não só nos vinhos que imagino que tomas, mas deduzo isso também pela beleza dela. Dela e do seu pomposo nome composto.

Não é nada engraçado saber que tens mais um novo amor.

Parece agosto de um ano nublado.

Meus olhos molhados lamentam não ser uma dessas mulheres que usas e descartas. Uma dessas tantas que não ligas no dia seguinte. Que inveja sinto delas. Delas e dos seus belos nomes compostos. A maior glória da minha vida seria ser descartada por ti, depois de dormir aconchegada na tua pele morena.

Mas tu te importas comigo. Ficas preocupado achando que estou sofrendo por ter sido abandonada pelo meu ex-amor. Que bom que ele se foi, pena que não vens.

Parece bolero, eu sei.
Brega, eu sei.
Fazer o quê se te quero, te quero.
Não sei de que jeito posso te esquecer de fato.

Me prendo no espelho, me finjo de retrato para parecer linda. Pareço tão linda.

Te ligo ofegante, mas desligo antes mesmo de terminar de discar. E me mandas mensagens. Me desejas feliz natal, feliz ano novo, feliz páscoa. Mas eu queria que me dissesses “meus beijos nunca mais”, pois significaria que alguma vez, umazinha que fosse, os teria provado.

É desconcertante não ser teu novo amor.


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(PS 01: Sei que deus castiga quando se brinca com o que é sagrado, peço desculpas ao Santo Antônio Brasileiro.)

(PS 02: Poucas coisas no mundo conseguem ser tão bonitas quanto uma música do Tom Jobim na voz da Gal Costa. Deleite-se abaixo.)

2 comentários:

Lamaringoni disse...

Querido David,

teus textos, quando tristes, são de uma beleza ímpar.

adorei, pra variar.

beijim

Manuela Penzlien Medeiros disse...

Gostei muitão.