terça-feira, 9 de março de 2010

1985, direto do túnel do tempo!


O magrelo de cabelos loiros, sou eu, Don Mattos; o moreno mais baixinho, é meu irmão, Sir Mattos.
O ano é 1985, na rua João Câncio dos Santos, em frente ao número 74, bairro Pantanal, Florianópolis – SC. E acho que esse foi o último ano em que eu fui mais alto do que meu irmão.

De lá pra cá, muitas coisas mudaram.
Eram 5 os filhos de Lorde Mattos, nosso progenitor, patriarca deste clã de elegância parca, mas de fígados extremamente resistentes. Somados os 5 ao casal Mattos, 7 pessoas habitavam o número 74 da rua supracitada.

Para os 7, uma garrafa de 1 litro de Pureza aos domingos (e olhe lá), bastava. Acredite;

Eu era coroinha.

A televisão era em preto e branco, não existia controle remoto, e quando a ligávamos, íamos à cozinha pegar um copo d’água enquanto as válvulas do tubo de imagem esquentavam;

Nós tínhamos um Atari, mas não podíamos usá-lo pois ele estragava a imagem da televisão.

Morar no Pantanal era muito barato, as residências eram baratas.

As crianças eram magras.

Minhas irmãs mais velhas, sonhavam em casar com o Robbie e com o Charles, dos Menudos. Mas achavam o Ricky Martin sem graça, era muito novinho, feinho.

O Joinville desfilava soberano sobre os gramados catarinense, ninguém o ameaçava, e havia na cidade rumores de que Figueirense e Avaí se fundiriam para formar um único time na capital, capaz de fazer frente aos poderosos tricolores do norte e do sul do estado.

Havia a esperança que na copa de 1986, o Brasil vingaria a decepção de 1982. Pena que a França cruzou nosso caminho, não vingou.

A cidade, o país fervia politicamente. O movimento das diretas injetou um sentimento de patriotismo em todo mundo. Edson Andrino surgia como a liderança popular que faria frente à Espiridão Amim e Jorge Bornhuansen.

Ninguém me derrotava no futebol de botão!

Eu não derrotava ninguém no bafo...

Escrevi meu primeiro livro: “C.B., o E.T” que narrava a fantástica história de um alienígena grande e gordo feito de sorvete, cuja nave aterrisava nas matas do Pantanal em frente à minha casa. (este livro ainda existe, e além de escritor, fui também o ilustrador. Vendo-se a qualidade dos desenhos, percebe-se por que desisti desta segunda carreira. Como escritor eu ainda teimo.)

Ninguém ficava doente por tomar banho de chuva.

Ninguém ficava doente por brincar na poça de lama.

Ninguém ficava doente por andar descalço na rua no meio do barro.

Meu pai tinha um Chevette, e sonhava com o dia que poderia comprar um Del Rey Ghuia, sonho realizado quatro anos mais tarde.

Ter casa de praia não significava ser rico, era normal.

Não se usava pulserinhas coloridas, mas tinham várias brincadeiras bem legais com as meninas da rua, nas casas em construção que, hoje em dia, abrigam dúzias de quitinetes para estudantes da universidade federal.

Não existia a Gaviões Alvinegros, não existia a Mancha Azul. Eu assistia jogos do Avaí com meu irmão, meu irmão assistia jogos do Figueirense comigo, e isso nunca foi motivo para brigas, mesmo com o inevitável deboche que vinha, dependendo do resultado.

Não sei se os brinquedos duravam mais, ou se as crianças eram mais cuidadosas, mas nossa coleção de bonequinhos dos Comandos em Ação, e a coleção de carrinhos de ferro, duraram muito, muito, muito tempo.

Não existia a ponte Pedro Ivo Campos.

Telefone em casa era luxo.

Interurbano tinha que ser feito na Telesc, na praça Pereira Oliveira.

Ligações em telefones públicos eram feitas com fichas, não cartões.

No início do ano letivo nós ganhávamos o joguinho do TP, para aprender a conservar os telefones públicos.

Estudávamos no Alferes Tiradentes, e fazíamos Educação Física na FAC.

Aos domingos, no aterro da baía sul, tinha concurso de Pipas.

Neste ano eu assisti “E.T., o extra-terrestre” no Cine Cecomtur.

Tinha ainda o Cine Carlitos (onde assistimos “História sem fim”) na rua Tiradentes, o Cine São José (o mais luxuoso da cidade) e o Cine Ritz.

Enfim, muita coisa mudou. Tudo mudou.

Menos uma coisa, se hoje eu fosse sair para tomar um banho de chuva, ainda seria a mesma pessoa que eu chamaria para me acompanhar.

8 comentários:

Josué Mattos disse...

Don Mattos!!!

Lindo texto! Me levou às lágrimas!

Calorosos abraços e muitas saudades!

Lamaringoni disse...

bonito texto, "moquirido"!


beijim!

ps. Ei, to chegando na ilha dentro de um mês e há uma cerveja pendente pra nós, hein?

Ronnie disse...

Emocionante.

Daca disse...

Caro Mattos, tu é o cara! Um escritor completo: drama, comédia e o que mais vier. Tu nasceu pra isso, além de nos fazer rir e quase chorar. Grande abraço do teu amigo, Daca.

Anônimo disse...

Ai, ai...
Lindo!

jean mafra em minúsculas disse...

que bonito texto, david.

parabéns, querido.

jean mafra em minúsculas disse...

porra, lara, que cantanda, hein?!?

Anônimo disse...

Lindo e emocionante seu texto. Parabéns!!!

Michele