terça-feira, 18 de maio de 2010

Seu Tiriri


Depois que o chute violento e seco colocou a porta abaixo, quatro foram os tiros direcionados a ele. Três acertaram-no em cheio, dois no peito, e o último no pescoço, quase no queixo. O quarto tiro estilhaçou o espelho atrás da banheira redonda de hidromassagem. Um estrondo perfeito para o final marcante que, desde o enfarto, ansiara para si.

Antes deste evento, em três oportunidades quase escafedera para sempre da face da terra, mas como que por teimosia, recusava-se em abandonar a vida de uma maneira que julgasse inglória, mediante seus tantos feitos que, segundo ele, eram merecedores de algo tão impactante quanto sua desavergonhada falta de caráter.

Tinha trinta e nove quando os tiros de Bartolomeu, marido de Etelvina, uma frentista muito feia e bastante fácil que atendia-o toda semana no posto perto da sua casa, e que eventualmente comia, alvejaram-no.

Aos vinte e oito, ainda bastante jovem, enfartou numa mesa de pôquer. Os outros, acostumados com seus calotes, acreditavam tratar-se de mais um dos seus tantos golpes, uma encenação qualquer para evitar a cobrança do muito que devia.

Não era.

Quando a ambulância do SAMU chegou, já eram quase nulos os sinais vitais, e no hospital o plantonista residente que o atendera alertou à Dona Jandira, sua mãe, que se preparasse para o pior, pois muitos foram os minutos que permanecera com o coração estagnado. Provavelmente à vida não voltaria, e se voltasse, as seqüelas decorrentes da falta de oxigenação no cérebro seriam inevitáveis, irreversíveis e penosas, tanto para ele quanto para os entes que ainda suportavam a sua presença.

Não vou morrer de uma morte tão escrota quanto um enfarto, disse para sua mãe no dia em que, para surpresa dos médicos, recobrou os sentidos sem o menor sinal de qualquer conseqüência física que fosse, No dia em que eu morrer, vou morrer de uma morte à altura da minha indignidade.

Aos trinta e dois ganhara notoriedade nacional quando fora o primeiro a ser diagnosticado com aquela gripe que vive às voltas com a crise de identidade, ora suína, ora A, ora AH1N1, enfim. Fora atirado novamente à uma cama de hospital com uma gripe tão desconhecida quanto maldosa, e que asseverava-se sobre a saúde debilitada de boêmio, que ele cultivava a base de cigarro, cerveja, mulheres sujas e noites em claro. Outra vez, Dona Jandira fora alertada pelos médicos de que, por tratar-se de um paciente já enfartado, e o avanço quase incontrolável da gripe que já transmutara-se em pneumonia, nada mais havia que ser feito, desta vez não escaparia.

Escapou.

Já viu vagabundo morrer de resfriado? Já viu cafajeste morrer de catarreira? Não seria justo eu o primeiro, disse já na casa de sua mãe, enquanto tomava a canja que Dona Jandira lhe preparara com todo o amor materno de quem guarda a resignação de ter falhado na educação do único filho.

Quando recém completara trinta e seis, fora atropelado na calçada enquanto apostava cinqüenta reais no burro, com o Seu Garrafa, bicheiro-mor do bairro. Uma mulher perdera o controle do carro numa curva, ao desviar de um gato que atravessara a rua sem a cautela de olhar para os dois lados, e acertou-o em cheio. O diagnóstico assinalava rompimento do baço, hemorragia interna e fraturas múltiplas. Morte certa, inescapável.

O desgraçado sobreviveu.

No bar, meses mais tarde, os amigos – tão bêbados e sem valor quanto – riam dizendo que ele quase morreu por ter apostado errado, devia ter colocado a onça empenhada no gato que atravessara a rua, e não no burro, Se para cada mulher barbeira que existe no mundo, um homem for morrer, vai ser o fim da espécie humana, disse entre um copo e outro, Não era no gato que eu devia ter apostado, era na vaca. Meia-roda dos infernos.

Se ele fosse um pouco mais romântico, ou se o motel não fosse tão vagabundo, talvez a porta fosse mais resistente e tivesse resistido ao pontapé do Bartolomeu. Mas ele nunca foi de gastar dinheiro com essas coisas, e gabava-se dizendo que, Romantismo de cu, é rola, ostentando toda a sabedoria de quem não sabe nada.

Entre os gritos desesperados de Etelvina e a fúria de Bartolomeu, ele olhou para o seu sangue que tingia a água amarelada da banheira, e viu que isso era bom. Atrás do marido traído, só ele percebeu entrar no quarto arrombado um alegre cortejo de Exús, que vinham buscá-lo bebendo cachaça, fumando charutos vagabundos e gargalhando. Entre eles, uma Pomba-Gira linda, vestida de vermelho e com uma enorme rosa escarlate presa ao lado dos cabelos trançados, de nome Carmencita, dizia, Vem Seu Tiriri, vem que é chegada tua hora.

E antes que seus olhos fechassem para não mais abrir, disse sorrindo, Agora sim!

8 comentários:

Clarice disse...

Repito, estás cada vez melhor Mattos.

Parabéns!

dondeestascorazon disse...

O Exú da seriedade tá baixando em ti, né David?
Tá ficando um moço sério.

julie

Daca disse...

e chato hahaha

pontabranca.md disse...

meus respeitos ao Seu Tiriri.

Daca disse...

como vou votar num magro barrigudo?

Daca disse...

FURA-OLHO AHAHAHA

Jonatan Lopes disse...

Bota o nome do Tiriri e cola uma imagem do Zé Pilintra... não entendi!

Don Mattos disse...

Olá Jonatan, sei que há essa diferença entre a imagem e o nome dos Exús em questão, mas quando escrevi, tinha em mente usar o Seu Tiriri como personagem principal, e na hora de buscar uma imagem, a mais interessante, que na minha percepção tinha mais a ver com o texto, era essa do Zá Pilintra, por isso que a escolhi. Achei que passaria batido, mas pelo visto és um ótimo observador.

Abraço e seja sempre bem-vindo!