terça-feira, 31 de maio de 2011

Não ria de mim


Não ria de mim só por que estou sozinho.

Não ria de mim hoje, não num dia tão frio em que, quando ainda era cedo e o céu estava azul, resolvi lavar o edredon para tirar aquele cheiro de guardado, sei lá, talvez você resolvesse vir aqui dormir comigo, só mais uma vez. Queria deixar o cobertor cheiroso para você. Na verdade, queria deixá-lo cheiroso para mim mesmo, mas gosto de me enganar pensando que talvez você possa mudar de ideia, e vir aqui dormir comigo mais uma vez. Umazinha só, que fosse. Mas sei que você não viria. Sei que você não virá. Além do mais, esqueci o cobertor no varal. Choveu no fim do dia. Vou ter que dormir de calça jeans, blusa de lã e jaqueta.

Não ria de mim, vou passar frio essa noite.

Não ria de mim só por que tentei te proteger, mesmo que você nunca tenha merecido o menor esforço meu. Mesmo que você não tenha feito o menor esforço para tentar entender o meu lado.

Não ria de mim por causa das minhas fraquezas, por que eu bebo mais do que devia, por saber que não deveria beber e, mesmo assim, beber e beber e beber.

A bebida não me abandona, você me abandona.

Não ria de mim hoje, justo hoje que não tem mais vinho pra mim. Nem a música, nem o livro, nem o vinho propriamente dito.

Não ria de mim só por que eu tive coragem de dizer que te amo. Talvez você não esperasse ouvir isso de um homem, mas é verdade, eu te amo.

Não ria de mim só por que eu fui um tanto quanto ciumento, um tanto quanto possessivo. Minha insegurança teve um lado bom para você, te ajudou a se auto-afirmar, a se tornar mais seguro de si mesmo.

Não ria de mim só por que você escolheu ficar com ela.

Talvez, no seu lugar, eu também a escolhesse.

Eu já a escolhi uma vez, não deu certo, uma pena. Não só por minha culpa, embora pareça que sim. Não deu certo, culpados não vêm ao caso. Uma pena.

Quem sabe com você as coisas deem mais certo, as coisas funcionem. Não acredito muito nessa possibilidade, mas, enfim, quem sabe...

Não ria de mim só por que o juiz me autorizou chegar perto de você apenas um sábado a cada quinze dias. Eu sei que você não quer nem essa esmola que eu recebi. Não vou te forçar a isso.

Não vou te forçar a me dar a esmola da tua presença quinzenal, que o juiz julgou ser minha por direito.

Vá, meu filho, pode ir embora com a sua mãe. Sejam a família onde eu já não caibo. Que entre a felicidade na vaga que eu ocupava, eu e minhas bebidinhas.

Só não ria de mim, por favor.

5 comentários:

Bruna Rafaella disse...

Realmente eu esperava que fosse outra coisa.
Belo texto caro Don...
sempre nos surpreendendo no final!!!

Beijoss

;)

Priscila disse...

Padrinho! (haha ja soa estranho...) Eu nao tenho nem palavras pra dizer o quanto feliz fiquei de te encontrar por aqui! Te achei atravez do Bolg do Josu que fez um post no facebook e veio parar no meu email sei la como... Putz, ultima vez que falamos, foi por telefone e iriamos nos encontrar no Kobrasol e acabou nao dando certo sei la porque... Como voce ta? Nao tive muito tempo ainda, mas li seu primeiro e seu ultimo post, li tambem sobre o sei livro, PARABENS, vou comprar o arquivo, e quando for praih compro o livro encadernado, jamais deixaria de te-lo na minha coleçao. Amei, amei o seu blog, vou ler sempre que puder agora. Como eh bom te reencontrar. Um beijo grande, e, espero que de proxima vez que eu for praih de certo de voce conhecer meus pimpolhos! ;) Pri.

Karla Koerich disse...

=~~

Karoliny S. Coelho disse...

Assino embaixo Bruna... É um belo texto e como sempre, surpreendente no final.
Também estava esperando por outra coisa.

Maravilhoso Don.

Abraço.

Karla Koerich disse...

Antes de qualquer coisa, obrigada pela visita e pelo elogio! =]

O texto é autobiográfico sim, infelizmente. A maior parte do que escrevo é sobre mim, sobre as minhas impressões diante do que - acho - que conheço melhor: minha vida.

E não, ele não é meu padrasto. seria incestuoso e nojento demais! argh! simplesmente vi meu pai nele, mas agora tenho ciência de que é algo que vai muito além disso.

Quanto ao seu texto, só "escrevi a lagriminha", porque estava quase chorando ao acabar de lê-lo.

De início, pensei tratar-se de uma amante, mas depois que vi que se tratava de um filho (fictício ou não), senti o pesar de quem é pai/mãe, por não ter a companhia do pequeno.

Seus textos também são ótimos! Haja criatividade. Adoraria ser mais imaginativa para conseguir criar de verdade.

E é mesmo, quem critica os gatos é por preferir a subserviência dos cães (eu também gosto de cachorros), e por não se agradar de um animal com vontade própria e que exige um trato mais subjetivo e observador. Mesmo assim, ainda tenho vontade de matá-los de vez em quando! hehe