quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O outro lado da história



Vou bater a real pra tu, as coisas não aconteceram exatamente como andam dizendo por aí.
Tá certo, eu admito que dedurei o cara, mas não foi assim, do nada. Chegar lá e pá, cagüetar o cara, não.
Ele fez por onde.
É fácil agora ficar por aí se fingindo de bonzinho e pagando de bom moço, mas tu não sabe o que eu passei...

Antes eu não tinha essa fama de fofoqueiro, de traíra.
Antes era diferente.
Quando começou todo o esquema, tinha aquele papo de: “somos todos irmãos” “somos todos iguais”, pô, a galera achou aquilo irado!. Parceria mermo, tá ligado?!
Vou te bater a real, todo mundo comprou a ideia do maluco na fé mesmo, irmão. Pode crer!
Não demorou nada para juntar os 12 neguinho, o papo era massa, transformar o mundo e tal, um lance assim meio revolucionário, tá ligado?! Eu achei da hora! Comprei a ideia da bagaça, vesti a camisa mesmo!

Aí, quando toda a galera topou encarar o negócio, todos os 12 camarada, daí a parada começou a crescer, começamo a ficar famoso, todo mundo comentando pelas boca que tinha uma galera chamando atenção e talz, até que pintou um empresário na jogada e começou a dar bode. O que era camaradagem, começou a cheirar trairagem, tá ligado?!

No começo eu até gostei da ideia do empresário, achei irado, saca? Pô, um empresário pode levantar a carreira do cara, tá ligado?! Eu dei a ideia de fazer um grupo de RAP para entrar no movimento HIP-HOP. Pô, podia botar uns cara pra fazer grafite, outros pra fazer o street dance, outros pros skate e eu e o Cabeça ia ficar no verso, tá ligado?! Eu mandava a letra, ele respondia, sem contar que eu mando bem pacarái no beatbox, tá ligado?!

Eles não curtiram essa idéia. Fiquei mordidasso com a parada.
Tinha um cara lá da galera que sugeriu fazer uma boys band, tá ligado?! Tipo Backstreetboys. Quis até copiar o nome, chamar de Heavenstreetboys. Mas eu fui contra. Achei aquilo a maior baitolagem, tá ligado?! Ia ficar lindo pra minha cara lá na comunidade, aparecer em clip de roupinha branca, mergulhando numa piscina e sair dela devagarinho fazendo cara de míope para parecer gatão, ah, dá um tempo porra. Mas vou te dizer, eu sempre desconfiei daquele cara...

Mas não vou dizer o nome do fresquinho não. Pô, pega mal delatar os cara né mano? Não é da minha fazer trairagem, tá ligado?!
Mas posso te dizer uma coisa, quando a gente saía por aí em turnê, sempre ficavam dois em cada barraca, e da barraca dele só se ouvia risinhos e uns versinhos assim: “pára Pedro, Pedro pára, pára Pedro, Pedro pára.” Parece que quando tudo acabou, e os dois voltaram para a terra deles, lá em Pelotas. Até gravaram isso e fizeram algum sucesso, mas desde as antigas que eu não curtia muito esse som não. Meu lance mesmo era o RAP, tá ligado?!

Daí teve outro que era metido a esportista, o Mateus. Ele sugeriu fazer um time de futebol, botar o nome de “Os celestiais”, “Os galáticos” , ou qualquer coisa assim. No começo até gostei da ideia, mas eles sempre me deixavam no banco, era o único reserva da parada, e isso que nem chegou a ter jogo oficial, foi só treino mesmo. Eu chiei mesmo, tá ligado?! Pô, cadê a parceria? Cadê a camaradagem? Quando tudo era difícil eu servia, agora que tava todo mundo ficando famoso iam me deixar de fora, não concordei com aquela palhaçada não. Deixamos a ideia do time de lado.

O empresário, não lembro bem o nome dele, era não sei o quê do Espírito Santo, uma coisa assim. Ele sugeriu que a gente saísse aí pelas quebrada só dando a letra, divulgando a palavra, tá ligado?! E não deu outra, foi o que a gente fez, e vou te falar irmão, deu o maior ibope! A galera tava curtindo mesmo!

Pô maluco, a parada ficou sinistra! Aí aquele lance todo subiu pra cabeça, tá ligado?!
Antes era parceria, “somos todos iguais”, “somos todos irmãos”, e não sei mais o que. Quando o negócio emplacou de vez, aí mudou o discurso, e o Magrão, que era o Cabeça veio com um papinho de: “eu sou o filho do homem”, “eu sou o caminho, a verdade.”, “eu sou luz, sou raio, estrela e luar”. Pô, qualé mano, tá pensando que é quem, o Wando porra?! Fiquei bolado com aquilo, na moral, fiquei boladasso com aquilo.
Quanto mais o tempo passava, mais aquilo ia subindo pra cabeça.

Ô maluco, tu vai pirar se souber tudo o que rolava nos bastidores, irmão. Só festança, a galera toda muito doida. Sabe como é famoso, pede uma coisa, vem mil. Acabou o vinho, puf, parecia milagre, toda a água da parada virava vinho na hora. E não era Campo Largo não, era coisa fina, irmão. Era coisa fina mesmo! Acabou o rango, puf de novo, aparecia um monte de pão italiano, tainha frita, tainha escalada, tainha grelhada, tainha ensopada, cara, era peixe que não acabava mais. Só festão! Na moral, irmão, só festão da pesada.

E também tinha umas mina massa, mas uma é que era nervosa mesmo.
O nome dela era Maria Madalena, mas a galera chamava ela de Madá treme-treme. Mina da pesada mesmo.

Daí que o Cabeça se encarnou na da Madá. Ela que fazia a festa da galera agora ia ser exclusiva. Malzaço pô! Parceiro que é parceiro não faz uma dessas, tá ligado?!
A galera foi bater uma real com a Madá:
“Pô Thuctchuca, que palhaçada é essa de exclusividade, mau pra caralho, tá ligada?!”
E ela:
“Qualé mané, tô melhor assim, tá ligado?! Antes é que eu tava errando, agora acertei!”Pó, aí o bagulho ficou nervoso, me queimei mesmo, tá ligado?!
“Qualé Madá??? Que tava errando o quê, eu sei que tu curtia, que papo é esse que tu tava errando?”
Nisso que o Cabeça se meteu por que viu que a treta tava ficando quente:
“Ô, ô, ô, que palhaçada é essa aqui? Deixa a mina, ela tá comigo, por quê? Vai querer encara, vai querer vir no mano-a-mano?”
Eu mandei a letra pra ele:
“Qualé Cabeça, cadê a parceria pô? A Madá ta errando feio. Tu tá errando feio também, irmão, qualé, cadê a parceria?”
Ele nem olhou pra mim, levantou as mãos como se fosse o maioral e soltou:
“Errando? Que errando o quê? Atire a primeira pedra quem nunca errou! Agora vaza, vaza. Vaza que eu quero ficar aqui sussa com a Madá.”
Nas escondida, a galera tava chamando a Madá de Yoko Ono, falei pros cara que por causa dela a parada ia começar a degringolar de vez.

Pô irmão, aquele lance foi foda. Fiquei mauzão com aquilo, irmão, tá ligado?! O cara bota a maior fé nos amigos, acredita que é tudo parceiro, irmão, e ele vem com uma daquelas, pô, sacanagem da braba, tá ligado?!

A galera sacou que o clima tava pesadasso. Aí rolou um rangaçal, uma baita ceia. Só pros chegado mesmo. Os doze mais o Cabeça. Daí, nesse rango que rolou a treta que ninguém fala. O Cabeça sugeriu que eu saísse da galera, e que colocariam outro no meu lugar. Pô, fiquei mordido, irmão. Aquilo não se faz. Mandei a letra na cara dele:

“Qualé irmão, tu tá achando que é quem? O Humberto Guessinger, o Axl Rose, que fica trocando todo mundo quando dá na telha? Eu faço parte disso aqui irmão, eu criei isso aqui também. E tu sabe que rola grana na parada, se botar um na minha mão eu até saio, mas não vou sair assim do nada, com uma mão na frente e outra atrás, tá pensando o quê.”

Mano, soltei aquilo peguei uma garrafa de vinho e saí do boteco onde tava rolando a ceia.

Pra mostrar que ainda gostava do cara, ainda fui lá e dei um beijo nele. Beijo no rosto, nada de viadagem, coisa de amigo, de parceiro, tá ligado?!

Depois fui dar um perdido por aí. Eu tava lá, tranquilão, na minha, bebendo sossegado quando pintou uma galera e falou que tavam sentado numa mesa perto da nossa, lá no boteco, que ouviram o meu bate-boca com o Cabeça e perguntaram se eu tava afim de vender a minha parte na bagaça.

Como eu tava virado num alho, soltei meu preço:

“40 paus, irmão. 40 paus e pode ficar com a minha parte da bagaça”
“Pô, 40 paus é muita coisa, só tenho 20”
“Então vaza véio, vaza que por 20 eu nem levanto daqui.”
“25 paus.”
“35”
“30”


Aí eu parei pra pensar, irmão. Pô, não tava mais afim da bagaça, tá ligado?! E 30 paus dá pra bater um rango massa, eu saí do boteco sem nem ter comido nada, tava com uma fome do cão. Só que não ia entregar assim fácil, ainda barganhei mais um pouco.

“30 paus mais essa corda aí que tu tá amarrando o teu cavalo.”
“Pô, pra que tu queres a corda, tu nem tá de cavalo.”
“Ah, sei lá, nunca se sabe quando vai se precisar de uma corda.”


Fechamos negócio ali mesmo, peguei minha grana, minha corda e dei o fora dali.
O cara ainda me perguntou se eu sabia onde eles estavam:

“Ô mané, tu não visse eles lá no boteco, devem estar por lá ainda. Corre que tu ainda pega o Cabeça.”

E pegaram.
Na real eu não sabia que os caras eram da Polícia Federal, tá ligado?! Chegou lá e pegou todo mundo no maior bundalelê, o bicho pegando bonito, um monte de mina, bagulho, coisa e tal. Os caras chegaram perguntando quem era o cabeça daquilo tudo, e o Cabeça se entregou na maior:

“Sou eu, por quê? O que tá pegando?”

Daí o resto tu já sabe, deu o maior xabú, o Cabeça se deu mal pra caramba e eu fiquei com fama de cagüete.

Ô, mas na boa irmão, nunca fui traíra, na moral.
Eu sempre fui parceiro, tá ligado?!

Um comentário:

Manuela Penzlien Medeiros disse...

Que treta mano! Se pá, esse créu dos zolhudus aí serviu pra uma coisa, que é aquele conselho/ditado utilizado até hoje: "amigos amigos, negócios a parte". O marketing e a persuasão até que funcionaram por um tempo, porém a estratégia definida no planejamento é que fudeu com tudo... o negócio desandou e o preibói, bom, esse aí pagou o pato e o pior é que até hoje ele é colocado na parede. Antes fosse pra lembrar que, quem tudo quer, tudo perde. Se achou o garotão, se ferrou na contramão meu bom.
E que Deus me perdoe por essas palavras, mas sabe como é...atire a primeira pedra, desde não seja no meu pé, hehehe! To fora!